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XLVIII

Abril 23, 2007

 

Envelhece-se, com alguma sorte, envelhece-se. José Nascimento resignava-se com a gota, com o reumatismo, com a falta de ar, com a dor pemanente no peito.

A velhice terá certamente algumas vantagens, mas Nascimento não se conseguia lembrar de nenhuma. Habituara-se a lidar com as coisas, aprendera técnicas para compensar o inexorável esvair da virilidade, conseguia, por vezes, aplacar o medo e o terror nocturno, ignorava certos sinais com que o corpo o desafiava.

O pior de tudo era a má-disposição. Dava por si sempre mal-disposto, rezingava, resmungava por tudo por nada, tornara-se, lentamente, de forma quase imperceptível, o oposto do homem alegre que recordava ter sido.

Houvera um momento da sua vida que matara a alegria, ou esta fora-se consumindo até não restar traço nem centelha, até sobrar apenas amargura e cepticismo? Merda, repetia para si próprio, merda, merda, merda.

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XLVII

Abril 17, 2007

No terramoto de 1998 a minha casa foi parar ao meio da estrada. A mercearia, que me dava tantas noites de insónia pelas fissuras que cresciam mesmo sem grandes tremores, foi poupada. Pareceu-me um milagre. Não fora isso e nunca teria arranjado forças para voltar a levantar muros e desenhar janelas a fio de prumo. Veja as minhas mãos! Venha cá, apague o cigarro nas minhas mãos! Apague! Não dói nada! A enxada que usei para fazer cimento deu-me e tirou-me todas as dores. Misturar bem aquela massa, juntar-lhe a areia, a água, volver, revolver, entremeá-la entre os tijolos, sem contar com a ajuda de ninguém, só com os meus braços e o dinheiro poupado a custo, muito custo, muita fome. E depois, veja lá, tipos que estavam no desemprego, que nunca trabalharam, a viver à custa da Segurança Social, abriam a boca e metiam-lhes a comida pela goela dentro, pedinchavam e tinham casas novas, móveis, tudo. Até vieram emigrantes, gente que nem vivia nas casas, pedir dinheiro. Deram-lhes tudo. A mim ninguém deu nada, nem madeira, nem tintas, nem um pincel! Não tenha medo, apague o cigarro nas minhas mãos!

Atrás do balcão, num canto, as netas, gémeas, faziam desenhos, aparentemente alheias à conversa. Mas quando o avô fez uma pausa no desabafo, levantaram o rosto e olharam-me com antipatia, ou mesmo raiva.

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XLVI

Abril 16, 2007

Para o Luigi

 

– Nome?

– Z., Joseph.

– Idade?

– Quarenta e seis.

– Ora, cá está. O senhor não sabia que todos os cidadãos são obrigados a apresentar-se perante esta comissão no ano em que completam quarenta e cinco de idade?

– Escapou-se-me… desculpe.

– Desculpo? Escapou-se-lhe? O senhor pensa que pode ignorar os fundamentos da nossa organização social apenas com um pedido de desculpas?

– Quer dizer, eu não pensei que fosse assim tão grave…

– Não pensou que fosse grave… O senhor não se apresentou perante a Comissão de Verificação de Idoneidade Existencial e acha que não é grave? Esse facto, para começar, não abona em favor da sua Idoneidade Existencial. O senhor sabe o que a nossa sociedade faz aos relapsos, aos indigentes, aos improdutivos, aos objectores de consciência, aos independentes?

– Afasta-os.

-Exactamente, afasta-os. E o senhor, na verificação anterior, quando completou vinte e cinco anos, passou com alguma benevolência por parte desta Comissão. Apesar disso não parece ter-se esforçado o suficiente para permanecer entre os cidadãos reconhecidos como tal.

– Mas eu…

– Não me interrompa. Tenho aqui o seu processo, está aqui tudo, a sua vida, digamos, minuto a minuto. Aviso-o desde já que o senhor está a um passo muito pequeno de passar a dispensável. A forma como decorrer este exame pode, ainda que eu duvide, fazer com que prossiga entre nós.

Vamos lá a ver… para começar a sua conta bancária é demasido baixa e você consome muito pouco. Pode explicar as razões?

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XLV

Abril 9, 2007

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Havia, nesse tempo, um rio que atravessava a planície onde os meus bisavós construíram a sua casa. O rio ainda lá estava quando o meu avô nasceu, e ele passou a sua infância mergulhando nas suas águas, preparando armadilhas para peixes, caranguejos e camarões, inventando barcos e batalhas, sonhando com a descida dessa estrada de água que, algures, num lugar longínquo e desconhecido, ia desembocar no mar.

Na aldeia contava-se a história de dois jovens amantes, haver-se-iam passado duzentos anos, segundo alguns, trezentos, segundo outros, que se teriam amarrado um ao outro por grossas correntes e atirado juntos às águas, unindo-se para sempre através da morte. A lenda passara de boca em boca, de geração em geração, e fora sofrendo pequenas distorsões ao longo dos anos, gerando versões distintas, apesar de todas coincidirem no essencial: dois amantes muito jovens, ela muito bela e rica, ele muito feio e pobre, um amor sofrido e tormentoso e uma noite, uma única noite em que a sua paixão se consumara até que, ao romper da madrugada, nada mais lhes restava senão o rio. Depois disso, dizia-se, ouvia-se um canto triste e langoroso emergir das águas em noites de lua nova e havia ainda, passado tanto tempo, quem jurasse escutá-los e distinguir claramente a voz de cada um deles.

O meu avô teria perto de vinte anos quando o leito do rio foi desviado alguns quilómetros por causa de uns projectos de engenharia. No leito antigo sobraram alguns poços com água, pequenos lagos, zonas pantanosas e mal-cheirosas onde proliferavam os mosquitos. Foi num desses pântanos que se encontraram dois esqueletos abraçados, unidos por grossas correntes muito enferrujadas. Bernardo Soares, meu avô, passou o resto da sua vida a estudar esses ossos, a desvendar a sua história, a procurar localizar descentes dos seus familiares próximos, a consultar velhos papeis em arcas e cofres igualmente velhos, e escreveu um livro em que narra as suas conclusões. Infelizmente morreu antes de o dactilografar e publicar. É precisamente esse livro que eu, palavra por palavra, passo a transcrever:

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XLIV

Abril 3, 2007

Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e deu-se conta de que o tempo parara. O ponteiro dos segundos estava enredado nos dos minutos, presumiu que a hora seguinte nunca chegaria.

Em baixo, na praça, um homem parou quando a avistou. Olhou para o relógio da torre e não convencido da inevitabilidade da paragem do tempo, sobressaltou-se. Durante um minuto, o movimento dos seus olhos quase enjoou do balanço. Os sinos, ela, o relógio, os sinos, ela, o relógio. Anteviu o movimento súbito, lento, vigoroso, do bronze pesado, afinado, mortal. Os braços abertos sobre a saia que esvoaçava. Não via o rosto. Quis gritar: –  Afaste-se!

Sentindo-se abençoada, ela permanecia imóvel, obedecendo à ordem do tempo. Estranhou sentir o rosto formar um sorriso, um pequeno sorriso que deveria ter permanecido interior. O olhar pousou então um pouco, o suficiente para avistar um homem que, tal como ela tantos dias, estancara face à visão da torre cantante.

Quando estalou um ruído seco de alavanca …

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XLIII

Abril 2, 2007


-Feromonas – disse o sr. Macjeito.

– Perdão? – perguntou o outro, que era fininho, corcovado e tinha cara de peixe.

– Feromonas, atracção animal, rebarba, cio – o sr. Macjeito agarrou o braço direito com a mão esquerda e rematou – tesão.

– E acha que isso explica tudo?

“Há tantas espécies de peixe”, pensou o sr. Macjeito, “carapau, sardinha, tamboril” e declarou em voz alta – Você não imagina o que as feromonas têm feito pela história da humanidade.

– Mas o gajo era um bronco! Ela, vá lá, pode até dizer-se que é uma senhora, parece inteligente, cheira-me a que seja culta.

– Uma coisa sabemos: a tipa tinha dinheiro, podia pagar.

– Está a dizer que, para eles, era tudo uma questão de truca-truca?

– Agradeço que não ponha palavras suas na minha boca. Mas acho que sim, para ela seria isso, truca-truca, vai e vem, o que queira. Para ele não sei, talvez fosse só por causa do pilim, o dito carcanhol.

-De modo que, diz você, ele andava atrás do guito?

– Uma nota de cem aqui, uma gravata de seda ali, o gajo era um cromo, investia na fachada, lustrava a frontaria.

– E ela?

– Ela gostava da loja, o marmanjo vendia artigo especializado.

– Ferormonas…

– Isso – o sr. Macjeito deixou passar a gaffe do outro – apostava na cambalhota, tinha um lado secreto.

– Vai daí, evaporaram-se os dois. E agora o marido paga-me para a encontrar.

– E você – “Cara de besugo, o outro tinha cara de besugo, avermelhada e tudo” – quer que eu o ajude a si…

– Que trace o perfil psicológico dos dois, que me ajude a analizar os dados e a compreender as suas motivações.

– Pois. Para já podemos excluir o amor desta história. Além disso, é um bitaite meu, pode bem ser que encontremos um cadáver no meio desta trapalhada. Ou até dois.

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XLII

Março 27, 2007

Sempre que atravessava aquela praça olhava a torre. Por vezes os sinos repicavam no exacto momento em que ela passava e então parava, sustinha os movimentos, hipnotizada. Uma torre assim nos Paços do Concelho era engraçado. Em vez de Deus, era o poder laico que ditava o horário, advertindo a população sobre o momento do despertar ou do recolher, ou apenas da pausa, das pausas, ou da necessidade de se apressar, de correr ao som do quarto de hora para não chegar atrasado ao encontro à hora certa.
Sempre que cruzava a praça, olhava para o relógio. gestos irreflectidos, de estender o braço, puxar a manga, olhar sem ver, quase, com a intenção arcaica de se certificar que o mecanismo continuava saudável. Ou fazia apostas infantis. chegaria à floreira antes do primeiro toque, dobraria a esquina antes da última badalada, ou adivinharia o exacto momento em que começariam os sinos a repicar. agora não, não, ainda não, agora sim… sem que tivesse alguma importância acertar ou não. Às vezes, compassava pensamentos ou palavras com o som.

Foi pois com uma alegria excessiva, despropositada, que aceitou entregar a encomenda naquele local. Logo à entrada do edifício, o segurança orientou-a. A secção que procurava ficava no último andar, deveria subir no elevador até ao segundo piso e depois ir a pé, utilizando as escadas à esquerda. Seguiu as instruções. Quando chegou ao lance de escadas, tosco, irregular, apertado, percebeu que estava precisamente no alto da torre. Como num velho castelo, equilibrava-se apoiando-se nas paredes. A meio percebeu uma porta mas decidiu não entrar. Os sinos estavam ali ao seu alcance. Continuou a subir. O corredor estreitava, os ângulos apertavam, até uma corrente de ar fresco ganhar corpo, adensar, e uma luz intensa quase a cegar. E de súbito, ei-los, gigantes, compactos, poderosos. Aproximou-se devagar, deslizou silenciosa pelas traseiras do primeiro, depois avançou, colocando-se entre os dois primeiros sinos, e estancou. O horizonte distante, o mar ao longe, e ainda o outro lado da baía, mais próxima a paisagem de telhados e arvoredo, até chegar à praça que conhecia tão bem, ali em baixo, com as suas floreiras e o empedrado geométrico. Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e…