Archive for the ‘Uncategorized’ Category

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Maio 16, 2007

Olga sorri para mim na fotografia que está sobre a secretária, junto ao computador, pisca-me o olho na sala de estar, no velho aparador que foi da sua avó, volta a sorrir-me dentro de uma moldura que ela própria fez e colocou em cima da minha mesa de cabeceira, no nosso quarto.

Olhar para ela faz-me sofrer, mas algo em mim me obriga a fazê-lo constantemente, não sei se algum dia ganharei coragem para afastar estas fotografias da minha vista, se elas alguma vez deixarão de me doer.

Recordo cada momento dos últimos dias – estávamos tão contentes, a alegria dela contagiava-me. Olga encontrara finalmente um produtor para o seu primeiro filme, a primeira longa-metragem a sério. Empenhara-se tanto! Vinha de uma reunião com a equipa de produção, estacionara o carro em frente à nossa casa, do lado oposto da rua. Ao atravessá-la foi colhida por um carro vermelho que vinha a grande velocidade. Olga foi projectada pelo ar, eu estava em casa e ouvi um grito, senti o ruído surdo da colisão. Espreitei pela janela e vi o corpo imóvel de Olga junto ao passeio. Corri como um louco em direcção a ela. O condutor não parou. Olga, a minha adorada Olga, não se mexia. Percebi logo que estava morta.

Olga olha para mim e sorri-me sobre a secretária, junto ao computador. O seu sorriso mata-me por dentro e eu choro com pena de mim, dos nossos sonhos desfeitos, dos filhos que planeávamos e que nunca teremos. Depois olho eu para ela e prometo-lhe, pela milésima vez, que não arrumarei as fotografias, ainda que o seu sorriso continue a matar-me por dentro, enquanto não encontrar o condutor do carro vermelho.

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(XXXIII)

Fevereiro 19, 2007

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Na origem de tudo esteve um olhar cruzado, e foi o pior que podia ter-me acontecido.

Na cidade onde moro, na província, não se faz festejo, manifestação ou procissão que dispense atafulhar a minha rua com a sua presença. Eu regressava a casa a meio da tarde e lutava duramente para atravessar a turba infrene, escorregava entre corpos suados e ruidosos, esquivava-me em direcção contrária à alegria postiça daquela massa amarfanhada de corpos bamboleando-se. Devo dizer que sou algo avesso a multidões com elevado grau de excitação e procurava despachar-me.

Tentei furar por um Osama Bin Laden que, saltitando frenético e agressivo, me impedia a passagem pondo-se no meu caminho. A cara dele fitava-me sem mudar de expressão, com um ar de gozo insistente e parvo. Atrás do idiota vinha um palhaço trazendo o Papa e George Bush pela mão. Bush apresentava-se de fraldas, do pescoço pendia uma chupeta enorme que lhe caía sobre o umbigo, e o Papa, com a mão livre, abençoava os mirones curvando-se ligeiramente a cada abençoadela. Uma odalisca hirsuta e musculosa aproximou-se do palhaço e eu vi-o dobrar-se repentinamente sobre si próprio, agarrando o ventre com ambas as mãos. Bush e o Papa, sentindo-se libertos das mãos do palhaço, prosseguiram dançando alegremente, cada um para seu lado. A odalisca voltou-se na minha direcção e os nossos olhares cruzaram-se no meio do carnaval. Foi então que ele viu que eu tinha visto, e que eu vi que ele viu que eu vira. Eu, contudo, estava ainda muito longe de imaginar os problemas que vinham de começar.

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XVI

Dezembro 20, 2006

1990. A vida decorre sem sobressaltos num Portugal que se acostumou a aplanar tudo, todos os buracos, com o betão e o alcatrão vindos da Europa, essa abençoada união robinwoodesca que partilha com os pobres as sobras dos ricos. Por esta altura, já só saem caravelas e naus das cabeças das pessoas, ainda acostumadas a sonhar com as alturas, mas obrigadas a aceitar que o país não cresceu, que o abecedário é conhecido apenas de alguns e que em outros lugares da mesma Europa, voam concordes, ganham-se prémios nobel e avança-se para o futuro, tentando esquecer que a liberdade é uma arma que se utiliza e desenvolve em tempo de guerra. Enquanto que algumas cabecinhas continuam a sonhar com um Salazar sebastiânico, outras começam a disfrutar das novas estradas e pontes e vias férreas, agradecendo por haver quem dê cavaco à ironicamente pequena distância entre o interior e o litoral, entre o norte e o sul. O que ainda neste tempo não se sabia é que outras pontes não se constroem com cimento e trabalho mal pago.

Despois deste prolegómeno prospectivo, penso que se pode agora começar a história de Amandina. Nascida e sempre vivida em Portugal, numa aldeia próxima do litoral aveirense. Vista como promissora, excepto por ela mesma. Criada para ser católica apostólica romana, preparada para a vida e para o casamento com que nunca sonhou, com o português dos sonhos que nunca encontraria. Habituada a ser a melhor por falta de concorrência. Farta de viver numa casa onde todas as superstições maternas enchiam o ar e os defumadouros constantes eram mais importantes que as discussões sobre lógica e realidade. Onde só as supostas vozes do além traziam verdades, confiança e curas.

Todos os bons princípios são originalmente publicados em Divas & Contrabaixos e em O Afinador de Sinos e m POnto de Saturação.