Archive for the ‘Textos dos Leitores’ Category

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LV

Maio 21, 2007

Há tanto tempo que vivia com o gato que deixara de lhe dar a importância da vida. Sabia que aquele aglomerado de massa e energia respirava, mas não se dava conta dos seus movimentos calculistas nem dos seus instintos felinos. Alimentava-o da mesma forma que todas as noites girava duas vezes a chave para trancar bem a porta de casa por dentro, ou que desligava e ligava a televisão. Era mais um gesto mecânico diário do que outra coisa qualquer.
Gestos mecânicos tinha muitos, tanto quanto se lembra, e desde que o seu salário de guarda -nocturno numa escola emagrecera para o de guarda-diurno das garagens de um condomínio de luxo, e por isso deixara de poder telefonar aos anúncios da secção Relax do maior matutino nacional, um dos gestos mais importantes da manhã era a masturbação no banho de imersão.
Tinha os dois pés fora de água, pousados na banheira, e um deles tangia um patinho de borracha amarelo que tremulava com o movimento oscilante do corpo. Quando viu o gato parado em cima do tampão da sanita, olhando-o fixamente, todas as noções de ausência de vida no felino desmaiaram ali. Parecia que o animal o observava com a consciência da sua própria existência, e talvez até se estivesse a sentir diminuído por não ser primata mas ser mamífero. Não tinha mãos para fazer o mesmo que o dono fazia. Orlando deu um pontapé no patinho, atirando-o até perto do lavatório, e o bicho seguiu-o imediatamente para o morder. Aliviado por sentir de novo a sua privacidade colada ao corpo, acabou o que estava a fazer antes de tomar o pequeno-almoço.
Agora está-se a rir. Não consegue deixar de rir. O juiz manda-o calar pela terceira ou quarta vez, já não se lembra muito bem. Mas não é o facto de nem sequer conseguir perceber porque é que está sentado no banco dos réus que o faz rir. Isso, no mínimo, poderia fazê-lo chorar. O seu gracejo deve-se a ter visto na face daquele julgador corpulento a mesma expressão que viu no seu felino uns anos antes. Teve até a sensação que, se pontapeasse um patinho de borracha para o meio do tribunal, o juiz atirar-se-ia a ele imediatamente para o morder também. Silêncio, grita de novo o gordo batendo com o martelo na mesa. Miau, responde Orlando, provocando uma tímida mas geral risada entre o público.

Autor: Bagaço Amarelo

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LIV

Maio 21, 2007

I – Princípio V

II – Princípio V, Cap. 2

III – Princípio V, Cap. 3:

Terça-feira dir-te-ei que não precisas voltar. A ver.

Disse-lho depois do sexo. Disse-lhe enquanto o mirava no espelho grande quando se afastou até à porta do quarto, nua. Memorizou-lhe as costas curvadas em harmónio os pés enclavinhados no tapete a testa luzidia apoiada nos nós dos dedos, adivinhando-lhe os tremores e nada mais que isso.

Retirou um cigarro do fundo da terceira gaveta da cómoda da entrada, e já na cozinha riscou devagar o fósforo. Fez deslizar lateralmente a janela por cima do lava-loiça e sentou-se com os pés sobre a mesa. O saco de lixo preto meio amarrotado, não passava de um fiapo entre as espirais de fumo.

Tenho que lhe atar as pontas pensou. Quando ele sair. E, esperou tempo que não se lembra pelo clic ao arrancar do esquentador. Sobressaltou-se quando a voz enrouquecida dele murmurou sem minudências encostada à ombreira:

-Anda, veste-te. Vamos deitar o lixo fora. E entretanto dizes-me o teu nome.

 Autora: J.P.

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LIII

Maio 21, 2007

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Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.
Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.
Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero.
Dizia que o amava.
Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se.
Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário.
A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.
Autora: Elipse

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LII

Maio 21, 2007

A paisagem parecia ser imutável. As ondas iam e vinham da mesma maneira tranquila e quase silenciosa do passado. O sol era, quando entrava lentamente no mar, do mesmo laranja intenso e quase perfeito. O areal permanecia tão denso e suave como quando de mãos dadas caminhavam descalças a sorrir e a amar a vida. Parecia tudo igual. Tudo tão terno e eterno.
Sabia de cor todos os momentos de felicidade que tinha vivido naquela praia há 15 anos atrás. Recordava-se de cada passo, de cada lampejo, de cada sorriso. Lembrava-se dos olhares trocados na clandestinidade, dos toques suaves na mão sem ninguém ver, do primeiro bilhete dado às escondidas de todos. Conseguia descrever a roupa vestida, as palavras ditas, os beijos sentidos e as promessas trocadas.

Autor: João Francisco

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LI

Maio 16, 2007

“De repente estacou, ao aperceber-se que caminhava como quem tem pressa. Que disparate, pressa de quê ou para quê? Nem os seus dias tinham pressa, passavam devagar e pausadamente; ele sempre achou que destoava do resto da multidão, precisamente pela calma dos seus passos.Pensava: “estes passos não são meus, não sei onde me levam, ou sequer se quero lá chegar…”, enquanto olhava um qualquer jardim, sentado na solidão das manhãs que o acordavam cedo.Tinha de sair logo mal acordava, daquelas quatro paredes que o atrofiavam e continuava a caminhar aqueles passos que não eram seus, a olhar aqueles rostos anónimos e a pensar nas vidas de cada um, como seriam? Seriam donos dos seus passos?No prédio já o apelidavam de fantasma, pois nunca ninguém o via, saía de madrugada e entrava depois das duas; interrogavam-se se sofreria de insónias. Mas não, a única coisa que o incomodava, eram mesmo aqueles passos que teimavam em ser dados e por vezes lhe mostravam coisas que não queria ver, ou sítios onde não queria ir.”

Ivamarle 

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V – capítulo 2, por Faz de Conta

Novembro 21, 2006

Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.

 

 

Depois lentamente desceu à calçada.

Ela nem queria, e dizia alto sempre que despejava o lixo, como quem despeja partes, eu nem preciso, nem quero. Mas queria cama, isso ela sabia que queria, aquele morno uterino de noite, a lembrar-lhe a dor da entrega em corpo. Corpo padecido em projecção furiosa e ávida, carnes frágeis.

Depois, tudo se lava, translúcida que arrasta o cheiro, as mãos, o hálito, as palavras fechadas no fundo da garganta.

Lavo-me e lavo-te. E despejo o lixo como te despejo a ti. Eu que nem preciso. Tu que me alivias e me transformas as formas em peso arrastado, só corpo, marcas de pés e mãos e cheiros, sem memórias.

Lavo-me. Devagar e minuciosamente.

Hoje é só quinta-feira.

Terça-feira dir-te-ei que não precisas voltar. A ver.

Autor: J.P., Faz de Conta