Archive for the ‘Ponto.de.Saturação’ Category

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XXV

Janeiro 17, 2007

Procurei fora de mim o amor que me devia… nunca o encontrei… Procurei-o no corpo de todas as mulheres, no rosto de cada filho, no gozo da heroína… procurei-o nos homens com quem dormi.

“Nunca amaste ninguém porque o amor parte de dentro. Apenas te distraíste.” Deve ser verdade, I.!

Numa daquelas noite com Ele, disse-me que o verdadeiro amor tinha um poder incontrolável e que eu nunca abandonaria a minha vida por amor, como ele fizera… Claro que não! Para quê comprometermo-nos com alguém se basta aprender a dizer, em várias línguas, “voulez-vous coucher avec moi”? Tive pena de não o ter aprendido em serrano, para evitar aquele jogo de rato que quer ser comido por um gato na dieta…

Houve aquela noite em que quis ser assediado por I., para deixar de lhe resistir, podendo alegar depois que o corpo não tem consciência! Ele ficou quieto, acho que para não ser negado como das outras vezes! Merda! Eu queria-o e Ele ficou parado de cegueira, sentindo-se indigno de quem o desejava… Devia ter-lhe falado na língua que ele aprendeu na serra, com as cabras e os cães com cio!

A experiência de outros princípios em O livro dos bons princípios. O que há de comum entre O afinador de sinos, Divas e Contrabaixos e esta saturação?

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XX

Janeiro 3, 2007

Era o quarto filho dos Pereira, para quem as esperanças de uma vida folgada tinham ficado na capital angolana, junto dos despojos de uma primeira tentativa de vida: casa, carro, palmeiras e balouços… Só a primeira filha regressou com o casal, quando a casa foi invadida e queimada. Isso terá sido por volta da revolução, e já nessa altura se enchia o país com os portugueses de segunda que atafulhavam os portos de Lisboa e transformavam a paisagem da capital com as barracas improvisadas: português que é português sabe que tudo já está bem quando “arremedeia”. Assim, criavam-se e transformavam-se bairros em Portugal, que segundo os retornados se assemelhavam às sanzalas, sempre depreciativas, sempre pouco higienizadas, sempre piores que as dos pretos, mas sempre vistas como provisórias. “Até que o governo nos dê uma casa”, dizia-se, sem se saber ao certo quem era esse governo e sem conhecer as suas prioridades. Sem saber quando viria essa casa e sem saber que Portugal era bastante mais frio para as crianças e para as bananas e mangos e abacates que agora já não cresciam à beira das estradas. Sem saber que para sempre seriam conhecidos por retornados e que isso os impediria de aceder à classe dos bem-vindo. Que nunca seriam emigrantes tão bons como os lusofranceses, lusobrasileiros, lusocanadianos, lusoamericanos e outros bem vistos lusos.

Outros princípios, a cheirar ao novo ano em Divas & Contrabaixos e em O Afinador de Sinos. Todos aqui.

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XVI

Dezembro 20, 2006

1990. A vida decorre sem sobressaltos num Portugal que se acostumou a aplanar tudo, todos os buracos, com o betão e o alcatrão vindos da Europa, essa abençoada união robinwoodesca que partilha com os pobres as sobras dos ricos. Por esta altura, já só saem caravelas e naus das cabeças das pessoas, ainda acostumadas a sonhar com as alturas, mas obrigadas a aceitar que o país não cresceu, que o abecedário é conhecido apenas de alguns e que em outros lugares da mesma Europa, voam concordes, ganham-se prémios nobel e avança-se para o futuro, tentando esquecer que a liberdade é uma arma que se utiliza e desenvolve em tempo de guerra. Enquanto que algumas cabecinhas continuam a sonhar com um Salazar sebastiânico, outras começam a disfrutar das novas estradas e pontes e vias férreas, agradecendo por haver quem dê cavaco à ironicamente pequena distância entre o interior e o litoral, entre o norte e o sul. O que ainda neste tempo não se sabia é que outras pontes não se constroem com cimento e trabalho mal pago.

Despois deste prolegómeno prospectivo, penso que se pode agora começar a história de Amandina. Nascida e sempre vivida em Portugal, numa aldeia próxima do litoral aveirense. Vista como promissora, excepto por ela mesma. Criada para ser católica apostólica romana, preparada para a vida e para o casamento com que nunca sonhou, com o português dos sonhos que nunca encontraria. Habituada a ser a melhor por falta de concorrência. Farta de viver numa casa onde todas as superstições maternas enchiam o ar e os defumadouros constantes eram mais importantes que as discussões sobre lógica e realidade. Onde só as supostas vozes do além traziam verdades, confiança e curas.

Todos os bons princípios são originalmente publicados em Divas & Contrabaixos e em O Afinador de Sinos e m POnto de Saturação.

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XIV

Dezembro 12, 2006

tinha acabado de chegar à cidade. não sabia a que cidade, assim como já não sabia quem era. também não fazia falta saber nada disto porque não conhecia a língua, não conhecia ninguém, logo não teria que dar qualquer tipo de resposta acerca destes dois detalhes de si. hospedara-se num hotel barato, onde abundam baratas e outros seres vivos, às vezes pouco mais que inanimados e às vezes pouco mais que parecidos com pessoas. todos os dias saía pela cidade à procura de um apartamento para alugar – sempre sairia mais barato – procurando exclusivamente tipologias T1 de prédios antigos. procurava neles também o que sabia que neles haveria de si mesmo: uma mulher sozinha. uma mulher casada não escolheria um T1. mulheres com filhos talvez andassem à procura de T3 ou T4. procurava alguém tão solitário como ele próprio. se procurasse alguém para partilhar um apartamento colocaria o seguinte anúncio:

“homem só procura outra solidão para partilhar estuque de paredes e estilhaços de dias. gosta de velharias, não de antiguidades. preferência a mulheres ou a o que delas restar.”

e é verdade que colocou, logo depois de alugar uma coisa mísera. e é verdade que ela apareceu, antecedida e sucedida de muitas outras mulheres. não queriam saber do apartamento. queriam saber de si. mas ela foi a única que apareceu a perguntar “posso ver a casa?”…

Outros pontos de venda ao público:
Divas & Contrabaixos
O afinador de sinos

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XI

Dezembro 5, 2006

Era daquelas pessoas que não sabiam contar histórias. Não havia nada a fazer! Desde miúdo que transformava todas as histórias que lhe contavam antes de dormir noutras histórias. E acrescentava sempre aquele ponto de que quem conta um conto… Enchia todas as histórias de nuances que os autores nunca se lembrariam. Por exemplo, de monstros muito mais feios do que eram naquelas realidades fictícias. E as princesas nunca eram tão bonitas como se dizia e usavam roupa interior com elásticos relaxados, daqueles que fazem som de esbijamento apodrecido. Os princípes deviam ser afinal, uns mariquinhas do pior que só eram capazes de beijar e montar miúdas a dormir, qual galantes, qual carapuça…

Enquanto crescia, mantinha a convicção de que aquelas patranhas eram para pataratas e outros crentes. Quando adolescente, chegou mesmo a pensar que nunca se interessaria por aquelas desenxabidas, armadas em princesas, que ficavam deitadas sem se mexer. Frígidas. A vida foi apenas sedimentando estas convicções, transformando-as em modo de vida, à revelia de pequenos incidentes que lhe mostravam que “a cavalo dado, não se olha o dente”, sobretudo quando se fala de éguas e de embriaguez e da infeliz conjugação das duas no mesmo quarto…

Era, como começámos, um inventor de histórias compulsivo. Se fosse historiador, seria inventor da História e não um desses arqueólogos de acontecimentos. E era inventor das suas próprias histórias e das que se inventava até passarem a ser verdade. Quando lhe perguntavam a profissão, ia alternando entre adjunto de chefe de estado (coisa fácil, já que, como ninguém sabe o que fazem, é fácil passar por um) e cozinheiro no “Tás-se Bem”, restaurante para gente de bem (bem-vestir, bem-pagar, bem-viver). Às vezes descaía-se e lá confessava que era mentiroso.

E foi por isso que, naquela noite, a mesma em que o reencontrei, naquele lugar em que me contratou para transacção de carnes, me respondeu com um “não quero nada”, quando lhe perguntei o que queria da vida. Eu era só uma pequena, num bordel tão escuro quanto vermelho, que lhe tentava vender o corpo por bom preço. Contou-me uns meses mais tarde, quando já eramos clientes assíduos um do outro, que nunca tinha gostado de putas que se vinham com perguntas existenciais. Preferia mentir. Eu acreditei, mas sabia que me estava a mentir…

Conhecia-do desde a niñez, quando ele me contava as suas versões da Bela Adormecida e da Branca de Neve, aquela meretriz dos contos para crianças, que inspirou muitas das minhas histórias do “Hidde and ride”…

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VI

Novembro 22, 2006

Acordou e olhou-se ao espelho, como todas as manhãs. Ficou intrigado com a ausência de diferenças em relação ao que fora: nem uma ruga, nem uma borbulha, nem um cabelo branco… O tempo não tinha passado pelo seu corpo. Olhou ainda as mãos, finas e ágeis, decerto já não tão robustas, mas ainda fortes e viris. Levantou o pijama que lhe cobria o peito e verificou que os abdominais lhe mostravam juventude e os peitorais respiravam vigorosamente. Respirou aliviado, feliz talvez por continuar a respirar. De novo, voltou a vestir-se, e, como todas as manhãs, correu para a casa de banho para ser homem e, como todas as manhãs, libertou-se da humanidade suada e imunda que o seu corpo acumulara em tantas partes de si, desde o intestino até ao sovaco… Ao sair de casa, a caminho do seu escritório na avenida mais in, voltou ao quarto e reparou na mulher que se tinha deitado com ele na noite anterior e em todas as noites desde há 18 anos: não tinha dado por ela. Não sentiu falta da sua juventude, não a olhou duas vezes…

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III

Novembro 15, 2006

O que prometeste naquela noite é que regressarias mais tarde, “daqui a pouco”, com uma surpresa boa. Não disseste que me trarias uma caixinha encarnada, embrulhada em cetiz preto, com um anel de preço comprometedor a fitar-me e a brilhar mais do que eu. Não me disseste que esperavas que a abrisse com entusiasmo ou que respondesse à tua pergunta (aquela que nunca quis ouvir!!! e que vai bem com a nossa música preferida) com o mesmo encanto eufórico com que a pronunciaste. Não me disseste nunca que esperavas mudar a minha forma de encarar a vida e a morte do amor, nem nunca esperaste fazê-lo entre lençóis, porque aí apenas inventamos que estamos vivos… Fiquei tão indignada contigo! Ou foi raiva? Ou decepção?

Balbuciaste umas palavras de incompreensão que nenhum de nós quis ouvir, que fingi não ouvir, voltaste as costas e eu soube que estavas a tapar o choro ou o grito com a palma da mão. Sei que te esmaguei, mas os teus sentimentos eram demasiado tenros, como fruta que pisamos no chão, mesmo sem querer ou quando queremos mordê-la mas se desfaz nas nossas mãos.

Agora sei que vais casar. Por isso decidiste encontrar-te mais uma vez comigo… Para me dizeres isso. Talvez humilhar-me. Não me conheces. Mas porque é que esta conversa tinha que acabar sem roupa, como as outras antes desta? Casa-te. Quem fica com as tuas alianças sou eu.