Archive for the ‘Divas & Contrabaixos’ Category

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XLIX

Abril 24, 2007

A sola do sapato roto e a mãe. Foram eles os culpados. Ou um maldito orgulho.

Ela escreveu na primeira página do caderno: Pergunta 1 – Como te chamas, Pergunta 2 – Que idade tens, Pergunta 3 – Qual a tua disciplina favorita, Pergunta 4 – O que queres ser quando cresceres, e por aí adiante, com uma dose igual de inocência e de malícia, ou não fosse o único objectivo do inquérito vê-lo responder também às últimas perguntas.
– Pergunta 9 – Gostas de alguém, Pergunta 10 – Descreve-o/a.

A regra era responder primeiro e depois fazer circular o caderno entre os amigos. Todos saberiam que se chamava Ângela, tinha 13 anos, mesmo que faltassem ainda alguns meses, gostava de geografia, queria ser analista, mas não dizia de quê, enfim, agradava-lhe a ideia de trabalhar num laboratório, gostava dos Bee Gees, mais especificamente do Maurice Gibb mas isso ali não dava jeito nenhum dizer porque afinal ele ia ler tudo, e gostava dele, do Alberto do 10° ano que, por agora, para não passar por tontinha, pois uma coisa é provocação e outra é humilhação, ai dele, era apenas simpático. E de repente, antes de ter tempo de recuar na decisão, a Manuela tirou-lhe o caderno e foi a correr entregá-lo ao Ramiro, que foi a correr entregá-lo ao Alberto, e lá estavam os dois, Ângela e Alberto, em pontos separados do polivalente, ela sentada ao pé do bar a fazer de conta que está na maior e ele ao pé do palco, rodeado de amigos, a ler o inquérito.
O toque para as aulas, uma troca de olhares, ela cheia de certezas, ele também gostava dela; ela sabia, por causa daquela maneira que ele tinha de lhe dizer coisas sem usar palavras, e no fim das aulas, o encontro, todos em manada a descer a rua da escola, ele a pegar a mão dela, ela a querer andar mas o corpo todo parado, ele a dizer – Lê!, ela leu, 9 – Ângela, 10 – Muito bonita, e pronto, namoravam, já sabiam os dois, e todos os amigos.

Tinham educação física nos mesmos dias e à mesma hora e combinaram faltar a essa aula para namorar, dizendo namorar a rir mas sem enganar ninguém, muito menos o outro, que ele tinha mais certezas sobre aquele amor dela e ela mais certezas sobre aquele amor dele, do que cada um deles sozinho, sobre o que sentia. Sentavam-se atrás do Pavilhão 2 e conversavam. A Manuela, que entretanto também começara a namorar com o Ramiro, contara-lhe em pormenor o primeiro beijo que tinha dado, na boca, e todos os dias ela esperava a vez dela, a vez dele. À noite, deitada na cama, e a bem dizer, demanhã ao acordar, e até nas aulas, quando se distraía, imaginava todas as formas possíveis do acontecimento. Sem querer esbarravam de frente e não resistiam, ele avisava-a por carta da premência de se beijarem, um dos dois adoecia gravemente e o outro dedicava-se sem limites à tarefa do consolo. Mas quando estavam sozinhos e ele começava a olhar muito sério para os lábios dela, ela virava o rosto, mais encarnada que sei lá o quê, e puxava outro assunto. E os dias foram passando, com as fugas ao sábado para o ir ver jogar andebol, os ensaios do ballet em que ele aparecia e lhe levava o saco até casa, as mãos dadas nos momentos mais íntimos nos tais dias de educação física, muitos mimos e olhares doces, e o desejo de beijos na boca.

Até que. há sempre um até que. até que o professor de ginástica comentou com a tia dela as faltas às aulas e o namorado, a tia comentou com a mãe, e um dia, atrás do Pavilhão 2, apareceu a mãe. Se lhe bateu logo ali ou só em casa, se foi buscar a chibata e a marcou ou se isso foi noutra vez qualquer, são pormenores sem importância. No dia seguinte, ele esperava-a, e ela não queria vê-lo.

Estavam sentados na relva, ela agarrada aos joelhos, o Alberto a espreitar-lhe o rosto escondido pelos cabelos. Ele nunca ia directo ao assunto mas nesse dia quis saber, logo, o que tinha acontecido, qual tinha sido o castigo, se lhe tinham feito mal. Ela choro não choro, mas depois virou-se e disse-lhe que estava tudo bem. Deitou-se e disse-lhe, irritada – nunca me beijaste! Cruzou uma perna sobre a outra e ia distrai-lo com mais qualquer coisa quando o viu olhar para o sapato. Um dos pares dos seus sapatos bordeaux, de camurça, com dois centímetros de tacão, e uma fivela pequenina de lado, tão lindos que os usava todos os dias, tão imprescindíveis que nem queria levá-los ao sapateiro, tinha um buraco na sola.

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XLVII

Abril 17, 2007

No terramoto de 1998 a minha casa foi parar ao meio da estrada. A mercearia, que me dava tantas noites de insónia pelas fissuras que cresciam mesmo sem grandes tremores, foi poupada. Pareceu-me um milagre. Não fora isso e nunca teria arranjado forças para voltar a levantar muros e desenhar janelas a fio de prumo. Veja as minhas mãos! Venha cá, apague o cigarro nas minhas mãos! Apague! Não dói nada! A enxada que usei para fazer cimento deu-me e tirou-me todas as dores. Misturar bem aquela massa, juntar-lhe a areia, a água, volver, revolver, entremeá-la entre os tijolos, sem contar com a ajuda de ninguém, só com os meus braços e o dinheiro poupado a custo, muito custo, muita fome. E depois, veja lá, tipos que estavam no desemprego, que nunca trabalharam, a viver à custa da Segurança Social, abriam a boca e metiam-lhes a comida pela goela dentro, pedinchavam e tinham casas novas, móveis, tudo. Até vieram emigrantes, gente que nem vivia nas casas, pedir dinheiro. Deram-lhes tudo. A mim ninguém deu nada, nem madeira, nem tintas, nem um pincel! Não tenha medo, apague o cigarro nas minhas mãos!

Atrás do balcão, num canto, as netas, gémeas, faziam desenhos, aparentemente alheias à conversa. Mas quando o avô fez uma pausa no desabafo, levantaram o rosto e olharam-me com antipatia, ou mesmo raiva.

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XLIV

Abril 3, 2007

Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e deu-se conta de que o tempo parara. O ponteiro dos segundos estava enredado nos dos minutos, presumiu que a hora seguinte nunca chegaria.

Em baixo, na praça, um homem parou quando a avistou. Olhou para o relógio da torre e não convencido da inevitabilidade da paragem do tempo, sobressaltou-se. Durante um minuto, o movimento dos seus olhos quase enjoou do balanço. Os sinos, ela, o relógio, os sinos, ela, o relógio. Anteviu o movimento súbito, lento, vigoroso, do bronze pesado, afinado, mortal. Os braços abertos sobre a saia que esvoaçava. Não via o rosto. Quis gritar: –  Afaste-se!

Sentindo-se abençoada, ela permanecia imóvel, obedecendo à ordem do tempo. Estranhou sentir o rosto formar um sorriso, um pequeno sorriso que deveria ter permanecido interior. O olhar pousou então um pouco, o suficiente para avistar um homem que, tal como ela tantos dias, estancara face à visão da torre cantante.

Quando estalou um ruído seco de alavanca …

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XLII

Março 27, 2007

Sempre que atravessava aquela praça olhava a torre. Por vezes os sinos repicavam no exacto momento em que ela passava e então parava, sustinha os movimentos, hipnotizada. Uma torre assim nos Paços do Concelho era engraçado. Em vez de Deus, era o poder laico que ditava o horário, advertindo a população sobre o momento do despertar ou do recolher, ou apenas da pausa, das pausas, ou da necessidade de se apressar, de correr ao som do quarto de hora para não chegar atrasado ao encontro à hora certa.
Sempre que cruzava a praça, olhava para o relógio. gestos irreflectidos, de estender o braço, puxar a manga, olhar sem ver, quase, com a intenção arcaica de se certificar que o mecanismo continuava saudável. Ou fazia apostas infantis. chegaria à floreira antes do primeiro toque, dobraria a esquina antes da última badalada, ou adivinharia o exacto momento em que começariam os sinos a repicar. agora não, não, ainda não, agora sim… sem que tivesse alguma importância acertar ou não. Às vezes, compassava pensamentos ou palavras com o som.

Foi pois com uma alegria excessiva, despropositada, que aceitou entregar a encomenda naquele local. Logo à entrada do edifício, o segurança orientou-a. A secção que procurava ficava no último andar, deveria subir no elevador até ao segundo piso e depois ir a pé, utilizando as escadas à esquerda. Seguiu as instruções. Quando chegou ao lance de escadas, tosco, irregular, apertado, percebeu que estava precisamente no alto da torre. Como num velho castelo, equilibrava-se apoiando-se nas paredes. A meio percebeu uma porta mas decidiu não entrar. Os sinos estavam ali ao seu alcance. Continuou a subir. O corredor estreitava, os ângulos apertavam, até uma corrente de ar fresco ganhar corpo, adensar, e uma luz intensa quase a cegar. E de súbito, ei-los, gigantes, compactos, poderosos. Aproximou-se devagar, deslizou silenciosa pelas traseiras do primeiro, depois avançou, colocando-se entre os dois primeiros sinos, e estancou. O horizonte distante, o mar ao longe, e ainda o outro lado da baía, mais próxima a paisagem de telhados e arvoredo, até chegar à praça que conhecia tão bem, ali em baixo, com as suas floreiras e o empedrado geométrico. Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e…

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XXXIX

Março 13, 2007

Ele discorria sobre colecção de arte do Ministério da Cultura. Sentia um verdadeiro prazer quando dominava os temas, e era o caso, ou não tivesse trabalhado lá durante mais de vinte anos. O pretexto era a nova exposição na Galeria nova. O Ministério doou algumas obras, quer dizer, não doou, estabeleceu um protocolo com as entidades locais, e durante, sei lá, 15 ou 20 anos, os cidadãos da terra podem usufruir, fruir, desfrutar, gozar, troçar, zombar de uma parte da colecção.

Mesmo com a Galeria fechada e a televisão do café acesa a passar imagens do MTV, os olhos dele ainda estão pregados em cada quadro, gravura, peça da colecção. – Alguns devem vir do Palácio da Foz onde era o SNI!
– Ah, nisso somos irmãos, no Brasil também teve o SNI – tenta interromper o João Brasa.
– O que era o SNI? – pergunta a ouvinte mais nova, mas não tão nova assim!
– Pois, não é do tempo dela! – Ele perdoa, para prosseguir. O Secretariado Nacional de Informação, e Cultura, e Turismo – cada pausa, como uma vírgula, para uma gargalhada. Então não conhece a maior obra de António Ferro? Depois do Secretariado de Propaganda Nacional, inventaram este nome, que sempre era mais discreto. Alguns destes quadros estavam no SNI, no Palácio da Foz. E há gravuras que aposto que vêm da Cooperativa de Gravadores Portugueses com quem a Secretaria de Estado tinha um protocolo. É fácil de ver, as gravuras têm sempre o mesmo número. Enfim, por onde andarão todas essas obras! Em gabinetes de ministros, embaixadas…, o Museu do Chiado, Serralves,… e numas Câmaras, depois de acordos como este! Mas é preciso fazer uma espécie de sociologia da arte! Não se pode atirar a colecção às pessoas… e diga-se que à excepção de um ou dois exemplares, neste caso, são tudo obras menores!
– Mas deve ter havido um critério na escolha das obras… – adianta a jovem não tão jovem, cheia de lógica.
Ele ri-se. – Não!
O Brasa explode: – Pôxa pá, então denuncia a fraude, que a coisa está a ser vendida como fantástica.
– Não há fraude, na verdade as intenções devem ter sido muito boas!
– Pura incompetência, não é? – diz a tal que foi jovem há pouco tempo, cheia de certezas.
– Eu acho que se pode transformar aquela colecção num tesouro… se a virmos por outro prisma. Era preciso fazer uma História da arte em Portugal. É que a culpa do logro não é só de quem o escolheu agora, também é de quem investiu nele há dezenas de anos. Voltando ao SNI….

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XXXVII

Março 6, 2007

Passaram em frente ao Café Palácio que, no seu tempo, pertencia ao senhor Eduardo. Ouviram as ondas ali perto bater contra o esporão, mas tratava-se de outra coisa. Não fora o mar que partira os vidros ou deixara a placa ainda com os néons, uns intactos, outros cortantes, pendurada por um fio, o vento a fazê-la oscilar. Já ninguém se sentava naquele lugar a ver passar os domingueiros do costume, ou o colega da Escola Industrial que casara cedo demais, ou o primo da vizinha. Uma sensação estranha. Não que fossem clientes habituais. Mas se nada tivesse mudado, poderiam sempre pensar que só eles tinham visto mundo, e uma superioridade pequenina poderia aflorar e confortar. Olhariam irritados um para outro e, sem palavras, sairia um resmungo sobre a cidade que parara no tempo e não evoluira. Mas se o Café Palácio fora vandalizado e já nem o senhor Eduardo andava por ali a queixar-se desta juventude que estava perdida, só Deus sabe o que mais teria acontecido na sua ausência. Normalmente eles iam para o Spinus, no andar de cima. Subiram as escadas. Ao chegar lá cima, no espaço “das mesas cá fora”, uma corrente de ar frio encolheu-os, fê-los entrar bem para dentro dos casacos e espreitar de olhos cerrados. Um vulto embrulhado numa manta dormitava, encostado a uma das paredes. Quando ouviu passos, voltou-se. E eles puderam reconhecê-lo. É o Zé da Coroa! É o Zé da Coroa! O Zé da Coroa levantou-se num salto. Começou a abanar a cabeça e a dizer palavrões, insultou-os. Ria-se, louco. São vocês!

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XXXV

Fevereiro 27, 2007

Os dois almoçavam numa tasca qualquer da cidade. Felizmente o Natal já passou! Finalmente voltavam à realidade, à relação e à discussão das decisões que teriam que tomar. O tempo do faz de conta acabara. Então já não há dúvidas! – dizia ele. Nunca tive dúvidas, mas agora é insuportável esperar mais. Ela falava baixo, olhava baixo. Um miúdo de dois ou três anos começou a chorar. Sorriram, derrotados. A João já marcou a consulta. Parece que a senhora é boa médica e, vê a ironia, tem consultório numa clínica de “reprodução assistida”. E depois ele disse: Eu levo-te lá, não te preocupes com nada! Não respondeu. Apesar da sua muito boa vontade, sincera, ela teve a certeza que depois do pesadelo acabar, não queria voltar a vê-lo.

Qual foi o erro dele? Os anos não tinham enfraquecido o sentimento. O que é que ele fez ou não fez, disse ou não disse, que não pudesse ser perdoado?