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XLI

Março 26, 2007

Havia um paísinho tristonho e enfadonho onde os seus habitantes tinham o estranho costume de andar sempre em marcha-atrás. Com a passagem do tempo adquiriram uma estranha deformidade no pescoço que os impedia de olhar para a frente, a não ser por breves períodos.

Nas escolas, nas empresas, nas reuniões, nos cafés, à mesa, durante as refeições, etc., estavam sempre de costas uns para os outros. Esse facto, aliado às dores que sentiam nos braços por, para verem o que faziam, realizarem a maior parte das tarefas ao contrário, dava-lhes uma má-disposição permanente e grande descrença nas suas capacidades.

Como resultado de tudo isto tornou-se mais fácil destruir do que construir, isolar do que reunir, desconfiar do que apoiar. Recebiam bem e manifestavam certa simpatia pelos estrangeiros que, esforçando-se, aprendiam rapidamente a andar em marcha-atrás. Em contrapartida sentiam algum ultraje e desconforto perante aqueles que teimavam em preservar costumes como caminhar ou olhar em frente.

A população ria-se muito quando um deles dizia – Isto é um paísinho cinzentonho e medonho -, achava graça, batia palmas atrás das costas, havia logo quem acrescentasse – merdonho, amigo, paísinho merdonho – e ouviam-se mais palmas batidas atrás das costas. Mas se era um estrangeiro a dizer as mesmíssimas palavras, olhavam-no de frente e ensaiavam um remoque meio engasgado. Olhar alguém de frente enquanto se ensaia um remoque meio engasgado era, no paísinho, o maior sinal de desprezo que se podia dar a outro.

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