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XL

Março 19, 2007

Frei Bernardo Xavier tinha dificuldades em manter os votos de silêncio quando bebia um copinho a mais de vinho de missa. Essa era, de resto, a única mácula que os seus piedosos irmãos lhe apontavam nos raros momentos em que falavam, entre si, sobre si próprios. No mais era frugal e diligente, activo e sempre pronto a ajudar o próximo. Penitenciava-se cuidando como nenhum outro das rosas, camélias e vinhas do convento. Envergonhava-o moderadamente a sua simpatia pelo vinho, especialmente o fino e doce que usavam nas celebrações, e aplicava-se com esforçada devoção na poda das videiras, na selecção das castas, na escolha dos bagos, na maceração do mosto.

O viciozinho do vinho era o único traço que o ligava à sua existência anterior, à outra vida que tivera. Nunca, antes ou depois, fora do género contemplativo e meditabundo, os mistérios da criação e a redenção das almas ficavam ao cuidado dos seus colegas mais místicos e mais dados às questões espirituais. Retirara-se do mundo e enclausurara-se ali porque jamais fora capaz de esquecer o olhar desesperado daquela mulher a quem, não a podendo amar, amara doentiamente.

Não fora um amor vulgar, semelhante a tantos outros amores proibidos. Quando ela lhe lançou o olhar que para sempre o atormentaria, já os dois frascos de veneno para ratos estavam vazios, já os seus orgãos rebentavam por dentro, já o seu adeus entrava na eternidade. Estava-se no início da primavera de mil novecentos e sessenta e sete…

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