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XXXIX

Março 13, 2007

Ele discorria sobre colecção de arte do Ministério da Cultura. Sentia um verdadeiro prazer quando dominava os temas, e era o caso, ou não tivesse trabalhado lá durante mais de vinte anos. O pretexto era a nova exposição na Galeria nova. O Ministério doou algumas obras, quer dizer, não doou, estabeleceu um protocolo com as entidades locais, e durante, sei lá, 15 ou 20 anos, os cidadãos da terra podem usufruir, fruir, desfrutar, gozar, troçar, zombar de uma parte da colecção.

Mesmo com a Galeria fechada e a televisão do café acesa a passar imagens do MTV, os olhos dele ainda estão pregados em cada quadro, gravura, peça da colecção. – Alguns devem vir do Palácio da Foz onde era o SNI!
– Ah, nisso somos irmãos, no Brasil também teve o SNI – tenta interromper o João Brasa.
– O que era o SNI? – pergunta a ouvinte mais nova, mas não tão nova assim!
– Pois, não é do tempo dela! – Ele perdoa, para prosseguir. O Secretariado Nacional de Informação, e Cultura, e Turismo – cada pausa, como uma vírgula, para uma gargalhada. Então não conhece a maior obra de António Ferro? Depois do Secretariado de Propaganda Nacional, inventaram este nome, que sempre era mais discreto. Alguns destes quadros estavam no SNI, no Palácio da Foz. E há gravuras que aposto que vêm da Cooperativa de Gravadores Portugueses com quem a Secretaria de Estado tinha um protocolo. É fácil de ver, as gravuras têm sempre o mesmo número. Enfim, por onde andarão todas essas obras! Em gabinetes de ministros, embaixadas…, o Museu do Chiado, Serralves,… e numas Câmaras, depois de acordos como este! Mas é preciso fazer uma espécie de sociologia da arte! Não se pode atirar a colecção às pessoas… e diga-se que à excepção de um ou dois exemplares, neste caso, são tudo obras menores!
– Mas deve ter havido um critério na escolha das obras… – adianta a jovem não tão jovem, cheia de lógica.
Ele ri-se. – Não!
O Brasa explode: – Pôxa pá, então denuncia a fraude, que a coisa está a ser vendida como fantástica.
– Não há fraude, na verdade as intenções devem ter sido muito boas!
– Pura incompetência, não é? – diz a tal que foi jovem há pouco tempo, cheia de certezas.
– Eu acho que se pode transformar aquela colecção num tesouro… se a virmos por outro prisma. Era preciso fazer uma História da arte em Portugal. É que a culpa do logro não é só de quem o escolheu agora, também é de quem investiu nele há dezenas de anos. Voltando ao SNI….

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