Archive for Março, 2007

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XLII

Março 27, 2007

Sempre que atravessava aquela praça olhava a torre. Por vezes os sinos repicavam no exacto momento em que ela passava e então parava, sustinha os movimentos, hipnotizada. Uma torre assim nos Paços do Concelho era engraçado. Em vez de Deus, era o poder laico que ditava o horário, advertindo a população sobre o momento do despertar ou do recolher, ou apenas da pausa, das pausas, ou da necessidade de se apressar, de correr ao som do quarto de hora para não chegar atrasado ao encontro à hora certa.
Sempre que cruzava a praça, olhava para o relógio. gestos irreflectidos, de estender o braço, puxar a manga, olhar sem ver, quase, com a intenção arcaica de se certificar que o mecanismo continuava saudável. Ou fazia apostas infantis. chegaria à floreira antes do primeiro toque, dobraria a esquina antes da última badalada, ou adivinharia o exacto momento em que começariam os sinos a repicar. agora não, não, ainda não, agora sim… sem que tivesse alguma importância acertar ou não. Às vezes, compassava pensamentos ou palavras com o som.

Foi pois com uma alegria excessiva, despropositada, que aceitou entregar a encomenda naquele local. Logo à entrada do edifício, o segurança orientou-a. A secção que procurava ficava no último andar, deveria subir no elevador até ao segundo piso e depois ir a pé, utilizando as escadas à esquerda. Seguiu as instruções. Quando chegou ao lance de escadas, tosco, irregular, apertado, percebeu que estava precisamente no alto da torre. Como num velho castelo, equilibrava-se apoiando-se nas paredes. A meio percebeu uma porta mas decidiu não entrar. Os sinos estavam ali ao seu alcance. Continuou a subir. O corredor estreitava, os ângulos apertavam, até uma corrente de ar fresco ganhar corpo, adensar, e uma luz intensa quase a cegar. E de súbito, ei-los, gigantes, compactos, poderosos. Aproximou-se devagar, deslizou silenciosa pelas traseiras do primeiro, depois avançou, colocando-se entre os dois primeiros sinos, e estancou. O horizonte distante, o mar ao longe, e ainda o outro lado da baía, mais próxima a paisagem de telhados e arvoredo, até chegar à praça que conhecia tão bem, ali em baixo, com as suas floreiras e o empedrado geométrico. Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e…

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XLI

Março 26, 2007

Havia um paísinho tristonho e enfadonho onde os seus habitantes tinham o estranho costume de andar sempre em marcha-atrás. Com a passagem do tempo adquiriram uma estranha deformidade no pescoço que os impedia de olhar para a frente, a não ser por breves períodos.

Nas escolas, nas empresas, nas reuniões, nos cafés, à mesa, durante as refeições, etc., estavam sempre de costas uns para os outros. Esse facto, aliado às dores que sentiam nos braços por, para verem o que faziam, realizarem a maior parte das tarefas ao contrário, dava-lhes uma má-disposição permanente e grande descrença nas suas capacidades.

Como resultado de tudo isto tornou-se mais fácil destruir do que construir, isolar do que reunir, desconfiar do que apoiar. Recebiam bem e manifestavam certa simpatia pelos estrangeiros que, esforçando-se, aprendiam rapidamente a andar em marcha-atrás. Em contrapartida sentiam algum ultraje e desconforto perante aqueles que teimavam em preservar costumes como caminhar ou olhar em frente.

A população ria-se muito quando um deles dizia – Isto é um paísinho cinzentonho e medonho -, achava graça, batia palmas atrás das costas, havia logo quem acrescentasse – merdonho, amigo, paísinho merdonho – e ouviam-se mais palmas batidas atrás das costas. Mas se era um estrangeiro a dizer as mesmíssimas palavras, olhavam-no de frente e ensaiavam um remoque meio engasgado. Olhar alguém de frente enquanto se ensaia um remoque meio engasgado era, no paísinho, o maior sinal de desprezo que se podia dar a outro.

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XL

Março 19, 2007

Frei Bernardo Xavier tinha dificuldades em manter os votos de silêncio quando bebia um copinho a mais de vinho de missa. Essa era, de resto, a única mácula que os seus piedosos irmãos lhe apontavam nos raros momentos em que falavam, entre si, sobre si próprios. No mais era frugal e diligente, activo e sempre pronto a ajudar o próximo. Penitenciava-se cuidando como nenhum outro das rosas, camélias e vinhas do convento. Envergonhava-o moderadamente a sua simpatia pelo vinho, especialmente o fino e doce que usavam nas celebrações, e aplicava-se com esforçada devoção na poda das videiras, na selecção das castas, na escolha dos bagos, na maceração do mosto.

O viciozinho do vinho era o único traço que o ligava à sua existência anterior, à outra vida que tivera. Nunca, antes ou depois, fora do género contemplativo e meditabundo, os mistérios da criação e a redenção das almas ficavam ao cuidado dos seus colegas mais místicos e mais dados às questões espirituais. Retirara-se do mundo e enclausurara-se ali porque jamais fora capaz de esquecer o olhar desesperado daquela mulher a quem, não a podendo amar, amara doentiamente.

Não fora um amor vulgar, semelhante a tantos outros amores proibidos. Quando ela lhe lançou o olhar que para sempre o atormentaria, já os dois frascos de veneno para ratos estavam vazios, já os seus orgãos rebentavam por dentro, já o seu adeus entrava na eternidade. Estava-se no início da primavera de mil novecentos e sessenta e sete…

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XXXIX

Março 13, 2007

Ele discorria sobre colecção de arte do Ministério da Cultura. Sentia um verdadeiro prazer quando dominava os temas, e era o caso, ou não tivesse trabalhado lá durante mais de vinte anos. O pretexto era a nova exposição na Galeria nova. O Ministério doou algumas obras, quer dizer, não doou, estabeleceu um protocolo com as entidades locais, e durante, sei lá, 15 ou 20 anos, os cidadãos da terra podem usufruir, fruir, desfrutar, gozar, troçar, zombar de uma parte da colecção.

Mesmo com a Galeria fechada e a televisão do café acesa a passar imagens do MTV, os olhos dele ainda estão pregados em cada quadro, gravura, peça da colecção. – Alguns devem vir do Palácio da Foz onde era o SNI!
– Ah, nisso somos irmãos, no Brasil também teve o SNI – tenta interromper o João Brasa.
– O que era o SNI? – pergunta a ouvinte mais nova, mas não tão nova assim!
– Pois, não é do tempo dela! – Ele perdoa, para prosseguir. O Secretariado Nacional de Informação, e Cultura, e Turismo – cada pausa, como uma vírgula, para uma gargalhada. Então não conhece a maior obra de António Ferro? Depois do Secretariado de Propaganda Nacional, inventaram este nome, que sempre era mais discreto. Alguns destes quadros estavam no SNI, no Palácio da Foz. E há gravuras que aposto que vêm da Cooperativa de Gravadores Portugueses com quem a Secretaria de Estado tinha um protocolo. É fácil de ver, as gravuras têm sempre o mesmo número. Enfim, por onde andarão todas essas obras! Em gabinetes de ministros, embaixadas…, o Museu do Chiado, Serralves,… e numas Câmaras, depois de acordos como este! Mas é preciso fazer uma espécie de sociologia da arte! Não se pode atirar a colecção às pessoas… e diga-se que à excepção de um ou dois exemplares, neste caso, são tudo obras menores!
– Mas deve ter havido um critério na escolha das obras… – adianta a jovem não tão jovem, cheia de lógica.
Ele ri-se. – Não!
O Brasa explode: – Pôxa pá, então denuncia a fraude, que a coisa está a ser vendida como fantástica.
– Não há fraude, na verdade as intenções devem ter sido muito boas!
– Pura incompetência, não é? – diz a tal que foi jovem há pouco tempo, cheia de certezas.
– Eu acho que se pode transformar aquela colecção num tesouro… se a virmos por outro prisma. Era preciso fazer uma História da arte em Portugal. É que a culpa do logro não é só de quem o escolheu agora, também é de quem investiu nele há dezenas de anos. Voltando ao SNI….

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XXXVIII

Março 12, 2007

Caíra uma vaca na praia e os homens da aldeia discutiam entre si como haviam de a remover. O animal aproximara-se demasiadamente da falésia, o chão cedera sob o seu peso e viera cá parar abaixo.

Tratava-se de uma pequena aldeia junto à Enseada dos Milagres, na Ilha das Tempestas. Pelos vistos acontecera novo milagre, já que a vaca não sofrera um único arranhão depois de uma queda de quase vinte metros.

A aldeia não dispunha de uma grua capaz de a içar e devolver ao pasto, o bicho recusava-se a subir a escadaria tosca que as pessoas utilizavam. Alguém trouxera um bote baixo e largo que se revelara inútil, havia já quem achasse que só morta e retalhada em quartos se poderia recuperar a carne, todo o restante trabalho seria pura perda tempo.

Foi então que surgiu o estrangeiro. Era um homem alto, louro, falava uma língua eslava que ninguém compreendia e, em vez de palavrear, arregaçou as mangas, explicando-se por gestos. Seriam necessárias cordas, o homem fez o gesto de alguém enforcado, um tronco, o viajante desenhou uma árvore na areia e retirou-lhe os ramos, e uma roldana, “disse” ele rodando os indicadores, um sobre o outro. Não era momento para desconfianças e reservas, e a gente da aldeia foi-se unindo e seguindo as suas indicações. Quando a vaca regressou ao lugar que lhe pertencia e foi pacatamente juntar-se às outras, todos o olharam como se fosse um deles. Foi por essa razão que ele, pouco a pouco, ano após ano, se tornou um tempestino e deu origem a uma prole que se destacou no governo e nos negócios da ilha.

A filha mais velha…

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XXXVII

Março 6, 2007

Passaram em frente ao Café Palácio que, no seu tempo, pertencia ao senhor Eduardo. Ouviram as ondas ali perto bater contra o esporão, mas tratava-se de outra coisa. Não fora o mar que partira os vidros ou deixara a placa ainda com os néons, uns intactos, outros cortantes, pendurada por um fio, o vento a fazê-la oscilar. Já ninguém se sentava naquele lugar a ver passar os domingueiros do costume, ou o colega da Escola Industrial que casara cedo demais, ou o primo da vizinha. Uma sensação estranha. Não que fossem clientes habituais. Mas se nada tivesse mudado, poderiam sempre pensar que só eles tinham visto mundo, e uma superioridade pequenina poderia aflorar e confortar. Olhariam irritados um para outro e, sem palavras, sairia um resmungo sobre a cidade que parara no tempo e não evoluira. Mas se o Café Palácio fora vandalizado e já nem o senhor Eduardo andava por ali a queixar-se desta juventude que estava perdida, só Deus sabe o que mais teria acontecido na sua ausência. Normalmente eles iam para o Spinus, no andar de cima. Subiram as escadas. Ao chegar lá cima, no espaço “das mesas cá fora”, uma corrente de ar frio encolheu-os, fê-los entrar bem para dentro dos casacos e espreitar de olhos cerrados. Um vulto embrulhado numa manta dormitava, encostado a uma das paredes. Quando ouviu passos, voltou-se. E eles puderam reconhecê-lo. É o Zé da Coroa! É o Zé da Coroa! O Zé da Coroa levantou-se num salto. Começou a abanar a cabeça e a dizer palavrões, insultou-os. Ria-se, louco. São vocês!

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XXXVI

Março 5, 2007

Cheguei a casa e descobri que estava morto, substituído e em vias de ser esquecido.

Marta, a minha mulher, encontrara em Jim um novo marido e Júlia, minha dilecta filha, via nele um novo pai. Além disso havia Charlie, filho de Jim. Sentámo-nos à mesa ( a minha antiga mesa, na sala da minha antiga casa ) e conversámos. Chorámos todos, até Jim, que me pareceu ser um tipo às direitas. Marta e Júlia, passado o susto, ficaram contentes por me ver. Fui ultrapassado por Jim no coração de Marta e penso que terei que me habituar a isso, mas não quero que Júlia esqueça quem é o seu verdadeiro pai.

É principalmente por ela que me sento neste limbo onde me encontro, para escrever, ponto por ponto, todas as recordações dos quatro anos de amnésia por que passei.