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XXX

Fevereiro 6, 2007

Ela começa a peça, que é um monólogo, a desenhar letras com fita-adesiva. Na parede vão aparecendo frases como “eu respiro, escutem”, “não descansem em paz”, e depois engana-se e escreve “ela exite“, ou talvez tenha sido intencional, que eu não consigo imaginar a existência sem muitas saídas, sem portas que se abram com correntes de ar ou que possamos empurrar, mesmo que pesadas. “Exite” pois, talvez um dia no nosso diccionário. E fala ao telefone com um amante, que ali não tem voz, nem nunca virá a ter corpo, a não ser na memória e nas palavras dela, a mulher que ele abandonou, e que está ali em forma de representação para o público ver. E a actriz é expressiva e convincente quando se esfrega de ânsia e atira mentiras. E eu digo que somos nós, fomos nós já, um dia qualquer, vamos ser. Mas chora mal.

Já tentei criar uma tipologia do choro. Depois desisti, é certo. Não consegui reduzir as categorias a um número operacional. Do pequeno soluço à prostação, passando pelo choro-lamento ou o choro-compulsivo, associados depois ao contexto – público, semi-público e privado, à frequência do comportamento – que pode ir de raro a habitual, variável importante para aferir uma atitude, para não falar da duração, características sonoras, efeitos na compostura física, etc., etc., enfim, são demasiados factores, e de difícil mensuração. Mas uma coisa é certa, pareceu-me que ela chorava mal. Quando não se vislumbra nenhuma possibilidade para além da dor que se sente, uma dor que nos quebra, nos parte em dois – sim, ela devia andar curvada -, como se chora? Imaginava um daqueles prantos que não conseguimos travar, desses que não nos deixam falar porque nem encontramos nada para dizer, que nos põem de joelhos e de braços estendidos? Quando morre alguém que nos é querido, é assim. Lembro-me da Alexandra me chamar a atenção para isso. Ela disse: “deram-me a notícia da morte da minha mãe e reagi como se me tivessem apunhalado, dobrei-me, caí”. E tenho observado esse reflexo outras vezes. Mas ele não morreu. Ele só a deixou e ela sabe isso e tenta ser racional e aceitar. Mas também sabe que não vai conseguir sobreviver. Como deve a actriz representar o desespero? Tenho uma tia que chorava sem fazer barulho. O filho morreu e ela conversava e chorava, tirava os iogurtes da prateleira do supermercado e chorava, chorava sempre, sem parar, mas discretamente. Mas ele não morreu, ela é que acha que vai morrer, e chora por si. Raramente rimos alto de nós. Na verdade, sorrimos, e tentamos sintetizar numa frase a piada que somos. Sós os tolos riem alto de si próprios, sobretudo se estão sozinhos. Mas chorámos alto por nós. Eu faço-o às vezes mas depois canso-me e silencio-me. Ela chora durante toda a peça, sozinha, e sempre agarrada à mesma dor. Não é realista. Há sempre um momento em que desviámos o curso da dor, inventando outra dor, por exemplo. Ela “exite“. Eu “exito“. Digo sempre que se pode morrer por falta de amor, mas nunca de amor.

A Alexandra não concorda nada comigo.

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One comment

  1. Sabem o que eu gostava mesmo? Era de ler as histórias com estes princípios, continuadas por vocês. É que estes princípios são espectaculares. Posso apreciar mais ou menos o tema, mas são originais, intressantes, fazem-nos logo viajar para qualquer lado. Em suma, são mesmo “bons princípios”!



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