Archive for Fevereiro, 2007

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XXXV

Fevereiro 27, 2007

Os dois almoçavam numa tasca qualquer da cidade. Felizmente o Natal já passou! Finalmente voltavam à realidade, à relação e à discussão das decisões que teriam que tomar. O tempo do faz de conta acabara. Então já não há dúvidas! – dizia ele. Nunca tive dúvidas, mas agora é insuportável esperar mais. Ela falava baixo, olhava baixo. Um miúdo de dois ou três anos começou a chorar. Sorriram, derrotados. A João já marcou a consulta. Parece que a senhora é boa médica e, vê a ironia, tem consultório numa clínica de “reprodução assistida”. E depois ele disse: Eu levo-te lá, não te preocupes com nada! Não respondeu. Apesar da sua muito boa vontade, sincera, ela teve a certeza que depois do pesadelo acabar, não queria voltar a vê-lo.

Qual foi o erro dele? Os anos não tinham enfraquecido o sentimento. O que é que ele fez ou não fez, disse ou não disse, que não pudesse ser perdoado?

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XXXIV

Fevereiro 26, 2007

 

Matteo Cigogna, jovem escritor com uma novela e um romance publicados, o último dos quais com sucesso mediano, discutia entediadamente com o seu editor.

– Repito que é essa a frase que eu quero, assim mesmo, sem tirar nem pôr. Não vê que é esplêndida?

– Olhe-se bem para uma sardinha. Olhe-se bem para uma sardinha… – repetia o editor – Isto é lá frase para começar um romance! Já pensou nos leitores que uma frase destas afasta?

– É brilhante. Bri-lhan-te. É o melhor início de romance que se pode imaginar.

– E, depois, isto: Olhe-se e, por uma vez, veja-se a sardinha, demoradamente, atenciosamente, como nunca… Você acha que alguém quer ler isto?

– Isto, como diz, é precisamente o que eu quero escrever.

– Mas você quer contar a história da tal Sara, ou quer escrever um manual de pesca?

– Se ler com atenção verá que, adiante, é Sara que pensa que nunca alguém olhou verdadeiramente para si. É ela que faz a comparação, a imagem é dela: “uma espécie de sardinha”.

– E que espécie de mulher se sente sardinha?, pergunto eu. – os olhos do editor trespassavam o corpo mole do escritor – Além do mais, depois de um início desses, ninguém chega a ler essa tal parte, desistem antes, não chegam a comprar o livro.

– Eu gosto da frase, acho que desperta a curiosidade, uma pess…

-Olhe-se bem para uma sardinha. Olhe-se bem para uma sardinha. Olhe-se bem… e esta coisa do atenciosamente, blá, blá, blá, e por aí fora. Ó homem, tenha paciência! Mude lá a porcaria do princípio, risque-o, faça o que quiser, mas arranje-me outro princípio, arranje, de preferência, um princípio que seja bom.

 

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(XXXIII)

Fevereiro 19, 2007

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Na origem de tudo esteve um olhar cruzado, e foi o pior que podia ter-me acontecido.

Na cidade onde moro, na província, não se faz festejo, manifestação ou procissão que dispense atafulhar a minha rua com a sua presença. Eu regressava a casa a meio da tarde e lutava duramente para atravessar a turba infrene, escorregava entre corpos suados e ruidosos, esquivava-me em direcção contrária à alegria postiça daquela massa amarfanhada de corpos bamboleando-se. Devo dizer que sou algo avesso a multidões com elevado grau de excitação e procurava despachar-me.

Tentei furar por um Osama Bin Laden que, saltitando frenético e agressivo, me impedia a passagem pondo-se no meu caminho. A cara dele fitava-me sem mudar de expressão, com um ar de gozo insistente e parvo. Atrás do idiota vinha um palhaço trazendo o Papa e George Bush pela mão. Bush apresentava-se de fraldas, do pescoço pendia uma chupeta enorme que lhe caía sobre o umbigo, e o Papa, com a mão livre, abençoava os mirones curvando-se ligeiramente a cada abençoadela. Uma odalisca hirsuta e musculosa aproximou-se do palhaço e eu vi-o dobrar-se repentinamente sobre si próprio, agarrando o ventre com ambas as mãos. Bush e o Papa, sentindo-se libertos das mãos do palhaço, prosseguiram dançando alegremente, cada um para seu lado. A odalisca voltou-se na minha direcção e os nossos olhares cruzaram-se no meio do carnaval. Foi então que ele viu que eu tinha visto, e que eu vi que ele viu que eu vira. Eu, contudo, estava ainda muito longe de imaginar os problemas que vinham de começar.

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XXXII

Fevereiro 13, 2007

Pedro só foi encontrado pela polícia por volta da meia-noite, no aeroporto de Faro. Estava em estado de choque, não dizia coisa com coisa, mas insistia na viagem. Trazia o pijama vestido por baixo da gabardine. Tinha andado de pantufas a correr todos os balcões. Dizia que queria comprar um bilhete de avião para Londres e, face a mais uma recusa, acabou por agarrar o pescoço de uma assistente da Companhia Aérea UKAL. Um turista deu o alerta. Quando o detiveram, não conseguiram algemá-lo. Tinha uma das mãos metida no bolso do impermeável e não a soltava. Via-se que amarfanhava um pedaço de papel. Só quando a equipa médica apareceu e conseguiram tranquilizá-lo, é que a polícia pôde ler a carta.

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XXXI

Fevereiro 12, 2007

 

Nota do autor: o livro que se segue é uma obra de ficção.

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

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I

-Eu podia dizer que sou licenciado sem ser, porra, mas até é verdade que sou. Elas também, mas tu vês pelos interesses, pelos erros ortográficos, pela forma como as gajas se exprimem. Inscrevo-me como licenciado, portanto, e isso permite logo uma certa selecção. Depois escolhe-se a idade: para mim entre os vinte e cinco e os cinquenta anos. Prefiro as de trinta e tal, mas já me apareceu uma cinquentona com um corpo de vinte. A cara não era lá grande coisa mas a tipa era porreira e, no fundo, é tudo uma questão de iluminação. E tinha cá uma experiência… Aquela coisa do vinho do Porto é mesmo assim…Depois os interesses: literatura, cinema, natureza, estás a ver?

Quando se acha que vale a pena vai-se à gaveta e manda-se um poema, por acaso até tenho uma meia-dúzia bem esgalhada, e, pronto, é vê-las cair. Quando eu era puto não era bem assim. Já fodi mais gajas com a internet do que em toda a minha vida anterior.

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XXX

Fevereiro 6, 2007

Ela começa a peça, que é um monólogo, a desenhar letras com fita-adesiva. Na parede vão aparecendo frases como “eu respiro, escutem”, “não descansem em paz”, e depois engana-se e escreve “ela exite“, ou talvez tenha sido intencional, que eu não consigo imaginar a existência sem muitas saídas, sem portas que se abram com correntes de ar ou que possamos empurrar, mesmo que pesadas. “Exite” pois, talvez um dia no nosso diccionário. E fala ao telefone com um amante, que ali não tem voz, nem nunca virá a ter corpo, a não ser na memória e nas palavras dela, a mulher que ele abandonou, e que está ali em forma de representação para o público ver. E a actriz é expressiva e convincente quando se esfrega de ânsia e atira mentiras. E eu digo que somos nós, fomos nós já, um dia qualquer, vamos ser. Mas chora mal.

Já tentei criar uma tipologia do choro. Depois desisti, é certo. Não consegui reduzir as categorias a um número operacional. Do pequeno soluço à prostação, passando pelo choro-lamento ou o choro-compulsivo, associados depois ao contexto – público, semi-público e privado, à frequência do comportamento – que pode ir de raro a habitual, variável importante para aferir uma atitude, para não falar da duração, características sonoras, efeitos na compostura física, etc., etc., enfim, são demasiados factores, e de difícil mensuração. Mas uma coisa é certa, pareceu-me que ela chorava mal. Quando não se vislumbra nenhuma possibilidade para além da dor que se sente, uma dor que nos quebra, nos parte em dois – sim, ela devia andar curvada -, como se chora? Imaginava um daqueles prantos que não conseguimos travar, desses que não nos deixam falar porque nem encontramos nada para dizer, que nos põem de joelhos e de braços estendidos? Quando morre alguém que nos é querido, é assim. Lembro-me da Alexandra me chamar a atenção para isso. Ela disse: “deram-me a notícia da morte da minha mãe e reagi como se me tivessem apunhalado, dobrei-me, caí”. E tenho observado esse reflexo outras vezes. Mas ele não morreu. Ele só a deixou e ela sabe isso e tenta ser racional e aceitar. Mas também sabe que não vai conseguir sobreviver. Como deve a actriz representar o desespero? Tenho uma tia que chorava sem fazer barulho. O filho morreu e ela conversava e chorava, tirava os iogurtes da prateleira do supermercado e chorava, chorava sempre, sem parar, mas discretamente. Mas ele não morreu, ela é que acha que vai morrer, e chora por si. Raramente rimos alto de nós. Na verdade, sorrimos, e tentamos sintetizar numa frase a piada que somos. Sós os tolos riem alto de si próprios, sobretudo se estão sozinhos. Mas chorámos alto por nós. Eu faço-o às vezes mas depois canso-me e silencio-me. Ela chora durante toda a peça, sozinha, e sempre agarrada à mesma dor. Não é realista. Há sempre um momento em que desviámos o curso da dor, inventando outra dor, por exemplo. Ela “exite“. Eu “exito“. Digo sempre que se pode morrer por falta de amor, mas nunca de amor.

A Alexandra não concorda nada comigo.