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XXII

Janeiro 9, 2007

1.
Ele cicia um canto hondo enquanto mira a paisagem. De tempos a tempos, o sussuro musical desperta-a. Viajam no mesmo pequeno compartimento como se estivessem sós. De noites longas em noites longas, o cansaço apoderou-se dela. A pele continua lisa, é uma cara pálida que se deixa embalar pelo pouca terra muita terra. Ele tem um revestimento curtido pelo sol. Cicia. Os olhos são grandes, a memória longínqua.

O revisor faz deslizar a porta com brusquidão. Bilhetes um, dois. E cumprido o dever, vira as costas, deixando o corredor da carruagem à vista, os passageiros expostos. Ah, estes homens tão pouco gentis, diz bem-disposto, enquanto se levanta para garantir privacidade ao casulo. Qual é essa canção? Isso é flamenco? Unh, não sei, é a minha música. Gosto dessa música, diz ela. E ele responde Se tivesse uma guitarra, cantava-lhe uma canção a sério. Vem donde? De Espanha, mas é segredo. Desci o Guadiana. Os olhos dela arregalam. Todas as quintas carrego o barco com mantas, colchas, lençóis, tudo da máxima qualidade, para distribuir nas feiras. Onde estão as mercadorias? Ah, hoje não trabalho. Deixei ordens ao meu irmão. Vou p’ra um casamento. E sorri largo.

2.
A memória que não se perde.
Estás a ver a feira de Espinho, entre a avenida vinte e quatro e a rua vinte, ficava na vinte, entre as ruas trinta e três e trinta e cinco. Uma casa amarela, cheia de rachas, parecia que podia cair a qualquer momento. Não tinha porta, a entrada era por trás, havia um portão que dava para um carreiro, à esquerda. Ela levou-me lá. Andava na minha turma e começámos a conversar porque nos encontrávamos no trajecto para a escola. No início acho que nem gostava de mim, eu sentia alguma curiosidade. A mãe e a tia foram simpáticas. Queriam que eu lanchasse, e riam-se imenso. Eu estava admirada. As paredes estavam forradas com um papel que tinha cornucópias de veludo, os sofás e poltronas eram majestosos, todos em bourdeaux. Eu já os conhecia da feira mas não sabia que eram ricos.

E o imaginário que nos povoa.
As notícias hoje, as notícias todos os dias, este país é uma miséria. Vê o caso da escultura da Santa. O pároco cedeu-a por uns meses a um Museu e aconteceu um motim na aldeia. Um cigano foi baleado e está internado em estado grave. Na aldeia queriam bater no padre, no hospital insultaram os jornalistas, diziam que eles só sabiam dizer mal dos ciganos.

Nos hospitais têm medo dos ciganos. Quando uma mulher deita um ciganito ao mundo, ela dá pontapés, pragueja. E ai se corre mal, é tareia pela certa à saída.
Experimenta meter-te com um, ciganos e navalhadas, andam juntos. É claro que não são todos iguais. Há um que se formou. Era ele que ainda outro dia dizia “aproximam-se tempos maus”. Se eles não podem vender contrabando e contrafacção, vão vender o quê? Drogas e armas!

Outro dia uma miúda seguiu-me. Apanhou-me ali na ponte e nunca mais me deixou em paz. Teria uns seis anitos. Queria que lhe comprasse leite em pó Nidina II para o irmão. Passámos pelo supermercado e comprei-lhe o leite. Era era tão bonita.

Pois, é um problema com a escola. Se os obrigam a ir, fogem. Se querem ir, os pais dos outros alunos expulsam-nos. Os adultos vão aprender a ler para receber o Rendimento Mínimo Garantido. Levam os putos com eles para as aulas, e quem lhes pode dizer que não pode ser?

3.
Quando se olha do centro para fora, os ciganos são vistos no limite da fronteira. São portugueses e estrangeiros, ao mesmo tempo. Quando são eles que se olham, não são uma coisa nem outra, são ciganos. Agora ela está bem desperta e fala demais.
– Lembro-me de um casamento na minha terra. Vieram ciganos de todos os cantos do mundo. Vai ser assim, esse casamento?
– Não, só vem gente de Portugal e de Espanha. É quase só família!
– Uma vez, na minha terra, uma cigana casou-se com um homem que não era cigano.
– Pois, às vezes acontece, mas ela não deixou de ser cigana, ele é que passou a ser.
– Não sei.
– Mas eu sei.
– É mais fácil deixar de ser cigano que passar a sê-lo.
– Se ela nasceu e cresceu cigana, é mais forte, tem mais ganas do que ele. E se ele não quer ser largado, tem que gostar dela como ela é.
Sorri largo.

4.
A honra é um valor primordial que organiza as relações amorosas e de poder entre ciganos. Em La Casada Infiel, de Lorca, um cigano narra a sua desilusão com a cigana que levara ao rio. Pensava que ela era solteira mas, ao saber que tinha marido, é obrigado a mostrar sua honra de “cigano legítimo”:

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
(…)

yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
(…)
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
(…)
Sucia de besos y arena,
yo me la llevé al río.

Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

Garcia Lorca [1924-7]

5. …

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