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XX

Janeiro 3, 2007

Era o quarto filho dos Pereira, para quem as esperanças de uma vida folgada tinham ficado na capital angolana, junto dos despojos de uma primeira tentativa de vida: casa, carro, palmeiras e balouços… Só a primeira filha regressou com o casal, quando a casa foi invadida e queimada. Isso terá sido por volta da revolução, e já nessa altura se enchia o país com os portugueses de segunda que atafulhavam os portos de Lisboa e transformavam a paisagem da capital com as barracas improvisadas: português que é português sabe que tudo já está bem quando “arremedeia”. Assim, criavam-se e transformavam-se bairros em Portugal, que segundo os retornados se assemelhavam às sanzalas, sempre depreciativas, sempre pouco higienizadas, sempre piores que as dos pretos, mas sempre vistas como provisórias. “Até que o governo nos dê uma casa”, dizia-se, sem se saber ao certo quem era esse governo e sem conhecer as suas prioridades. Sem saber quando viria essa casa e sem saber que Portugal era bastante mais frio para as crianças e para as bananas e mangos e abacates que agora já não cresciam à beira das estradas. Sem saber que para sempre seriam conhecidos por retornados e que isso os impediria de aceder à classe dos bem-vindo. Que nunca seriam emigrantes tão bons como os lusofranceses, lusobrasileiros, lusocanadianos, lusoamericanos e outros bem vistos lusos.

Outros princípios, a cheirar ao novo ano em Divas & Contrabaixos e em O Afinador de Sinos. Todos aqui.

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