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XIII

Dezembro 12, 2006

 

O Pierre era gay mas eu não sabia. Pouco importa, apaixonei-me por ele e deixei-o ensinar-me o que podia. Ensinou-me Mahler.
O Pierre era judeu. traço de ainda menor interesse, não fosse ele só ter mãe, porque avós e tios haviam sido mortos por nazis, e o pai desaparecera por não aguentar o porta-destroços que era a mulher.
À míngua de sexo, não faltavam palavras. e hoje voltou o eco daquela voz grave, quase desencarnada.
Da ignorância passei ao conhecimento e deste novamente para a ignorância. uma ignorância lúcida, se isso existir. que é o que sentimos também quando lemos poesia chinesa, Li Bai, a moda na Viena de 1900, de Mahler.
Sempre Mahler. Mas depois da Canção da Terra, confesso, não quis ouvir mais nada. Um dia lemos juntos sobre o estado de espírito do músico enquanto compunha a Sinfonia. A morte da filha de seis anos, a profunda depressão. Devíamos ir ali pela Canção do Adeus, a última da peça. E então aconteceu. Chorámos. Juntos. Sei que começou no minuto 17. porque quando quero chorar, volto lá. e até ao minuto 31, tenho 14 minutos de lágrimas. minha catarse por todos os adeus que não pude dizer. como ao Pierre. que nesse dia beijou pela primeira vez uma mulher.




Nota: Canção do Adeus, fragmento interpretado por Eiko HIRAMATSU. Sobre a obra “Das Lied von der Erde”, mais informação aqui.

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