Archive for Dezembro, 2006

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XVIII

Dezembro 26, 2006

A borboleta pousada ou é Deus ou é nada.
Adélia Prado

Comecei a ler sobre Darwin por causa de um filme.
Apaixonei-me por causa de um filme.
Provavelmente casei, tive filhos, fugi, por causa de um filme.
Queria ser uma deusa ou nada.

A evolução da espécie implodiu. mas a neurobiologia recuperou o conceito.
Meu amante curvou-se a uma sorte tirada com tanto cálculo e batota que sobrou pouco para o factor aleatório. mas peguei nele, refi-lo e saiu um quase homem.
Pouco tempo depois, perdi a aliança, símbolo de nosso jogo inter pares. mas no dia em que parti com as crianças, ela apareceu no fundo do armário.
Ser deusa pode ser ficar pousada. mas só depois de esvoaçar.

Eu acho que quando uma borboleta pousa, temos que ver primeiro donde vem. E depois decidimos se é deus.

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Um leitor é uma borboleta pousada. Aquele lê…

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XVII

Dezembro 26, 2006

   Foi com relativa indiferença que acolhi, aí pelos meus seis ou sete anos, a revelação da não existência do Pai Natal. O mesmo não poderei dizer de quando, poucos anos depois, soube que algo semelhante se passava com D. Quixote e Sancho, a sua sombra anafada. A descoberta de que não passavam de dois seres de papel, tal como o meu amado Rocinante, encheu-me de tristeza e desilusão. Recordo-o agora, nesta minha viagem por terras manchegas que, segundo os meus cálculos, me era devida há trinta e dois anos, quando sonhava com vastas planícies e doces colinas, com moinhos e com gigantes desfazendo-se no horizonte.
Chama-se Carmen a minha Dulcineia e é por ela que percorro estas estradas com demasiada pressa e não me detenho a observar as paisagens de Quixote ( o que restará, ainda, do que viram os seus olhos? ) como sempre desejei fazer. Carmen, dizia, é bióloga, vive em Cuenca e faz pesquisa genética num instituto privado. Conheci-a em Lisboa, há pouco menos de dois meses. Acredito que ela se tenha apaixonado tanto por mim como eu por ela, prefiro ser positivo, esta é a primeira visita que lhe faço, não tenho outros planos senão estar com ela, reler Cervantes e percorrer alguns caminhos de Quixote. Encosto o carro e marco o número de Carmen. Telefonei-lhe esta manhã, ainda de Portugal, disse-me que estava impaciente pela minha chegada, sussurrou que me amava, senti o bafo do seu beijo através do auricular. O telefone toca do lado de lá. Espero. Carmenzita, mi amor, quero dizer-lhe no meu péssimo castelhano, queda poco, pouco mais do que cem quilómetros, até te encontrar outra vez. O telefone continua a tocar do lado de lá. Insisto. Nada, Carmen, mi Carmenzita, não atende. Deixo que passem dez minutos e volto a tentar. Começo a sentir-me nervoso. E se Carmen não responder?

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XVI

Dezembro 20, 2006

1990. A vida decorre sem sobressaltos num Portugal que se acostumou a aplanar tudo, todos os buracos, com o betão e o alcatrão vindos da Europa, essa abençoada união robinwoodesca que partilha com os pobres as sobras dos ricos. Por esta altura, já só saem caravelas e naus das cabeças das pessoas, ainda acostumadas a sonhar com as alturas, mas obrigadas a aceitar que o país não cresceu, que o abecedário é conhecido apenas de alguns e que em outros lugares da mesma Europa, voam concordes, ganham-se prémios nobel e avança-se para o futuro, tentando esquecer que a liberdade é uma arma que se utiliza e desenvolve em tempo de guerra. Enquanto que algumas cabecinhas continuam a sonhar com um Salazar sebastiânico, outras começam a disfrutar das novas estradas e pontes e vias férreas, agradecendo por haver quem dê cavaco à ironicamente pequena distância entre o interior e o litoral, entre o norte e o sul. O que ainda neste tempo não se sabia é que outras pontes não se constroem com cimento e trabalho mal pago.

Despois deste prolegómeno prospectivo, penso que se pode agora começar a história de Amandina. Nascida e sempre vivida em Portugal, numa aldeia próxima do litoral aveirense. Vista como promissora, excepto por ela mesma. Criada para ser católica apostólica romana, preparada para a vida e para o casamento com que nunca sonhou, com o português dos sonhos que nunca encontraria. Habituada a ser a melhor por falta de concorrência. Farta de viver numa casa onde todas as superstições maternas enchiam o ar e os defumadouros constantes eram mais importantes que as discussões sobre lógica e realidade. Onde só as supostas vozes do além traziam verdades, confiança e curas.

Todos os bons princípios são originalmente publicados em Divas & Contrabaixos e em O Afinador de Sinos e m POnto de Saturação.

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XV

Dezembro 19, 2006

um dia
num passeio outonal depois de me ter des
florado toda em amena conversa com o Alberto Pi
menta perguntei a mim mesma qual a sorte do outo
no? a nossa vida é
como uma estação do ano ou como as quatro
estações ou as estações são como a nossa vida? O outo
no nem sabe porque começa mesmo naquele dia e não no dia
seguinte e não depende
muito dele se os dias são amenos ou chuvosos
sendo no entanto certo que vão ficando mais curtos
e que há sempre um ventinho a fustigar (sentirá o outono quando está quase
a terminar?)
absorta me deixei assim ir à deriva até que as folhas caí
das no chão e que eu ia triturando ganharam voz e essa voz era um murmúrio
tão doce que me apeteceu deitar
-me com elas
e ouvir as suas histórias sobre cama
leões e cores que iam conhecendo à flor da pele
(todos conhecem algumas das tonalidades das folhas outonais) e destas
histórias tão puras
fui percebendo que também podia ser uma folha (mas
é claro que não sou) e estava quase a adormecer quando o Alberto abriu um
afluente do seu largo rio e morri com elas antes do fim do outono
que balada exultante
ah!

no dia seguinte

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XIV

Dezembro 12, 2006

tinha acabado de chegar à cidade. não sabia a que cidade, assim como já não sabia quem era. também não fazia falta saber nada disto porque não conhecia a língua, não conhecia ninguém, logo não teria que dar qualquer tipo de resposta acerca destes dois detalhes de si. hospedara-se num hotel barato, onde abundam baratas e outros seres vivos, às vezes pouco mais que inanimados e às vezes pouco mais que parecidos com pessoas. todos os dias saía pela cidade à procura de um apartamento para alugar – sempre sairia mais barato – procurando exclusivamente tipologias T1 de prédios antigos. procurava neles também o que sabia que neles haveria de si mesmo: uma mulher sozinha. uma mulher casada não escolheria um T1. mulheres com filhos talvez andassem à procura de T3 ou T4. procurava alguém tão solitário como ele próprio. se procurasse alguém para partilhar um apartamento colocaria o seguinte anúncio:

“homem só procura outra solidão para partilhar estuque de paredes e estilhaços de dias. gosta de velharias, não de antiguidades. preferência a mulheres ou a o que delas restar.”

e é verdade que colocou, logo depois de alugar uma coisa mísera. e é verdade que ela apareceu, antecedida e sucedida de muitas outras mulheres. não queriam saber do apartamento. queriam saber de si. mas ela foi a única que apareceu a perguntar “posso ver a casa?”…

Outros pontos de venda ao público:
Divas & Contrabaixos
O afinador de sinos

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XIII

Dezembro 12, 2006

 

O Pierre era gay mas eu não sabia. Pouco importa, apaixonei-me por ele e deixei-o ensinar-me o que podia. Ensinou-me Mahler.
O Pierre era judeu. traço de ainda menor interesse, não fosse ele só ter mãe, porque avós e tios haviam sido mortos por nazis, e o pai desaparecera por não aguentar o porta-destroços que era a mulher.
À míngua de sexo, não faltavam palavras. e hoje voltou o eco daquela voz grave, quase desencarnada.
Da ignorância passei ao conhecimento e deste novamente para a ignorância. uma ignorância lúcida, se isso existir. que é o que sentimos também quando lemos poesia chinesa, Li Bai, a moda na Viena de 1900, de Mahler.
Sempre Mahler. Mas depois da Canção da Terra, confesso, não quis ouvir mais nada. Um dia lemos juntos sobre o estado de espírito do músico enquanto compunha a Sinfonia. A morte da filha de seis anos, a profunda depressão. Devíamos ir ali pela Canção do Adeus, a última da peça. E então aconteceu. Chorámos. Juntos. Sei que começou no minuto 17. porque quando quero chorar, volto lá. e até ao minuto 31, tenho 14 minutos de lágrimas. minha catarse por todos os adeus que não pude dizer. como ao Pierre. que nesse dia beijou pela primeira vez uma mulher.




Nota: Canção do Adeus, fragmento interpretado por Eiko HIRAMATSU. Sobre a obra “Das Lied von der Erde”, mais informação aqui.

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XII

Dezembro 11, 2006

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  C. firma bem os pés e coloca criteriosamente os dedos das mãos de modo a não tocar na linha branca meticulosamente traçada no chão, diante de si. Retesa os músculos, está tenso como uma besta pronta a disparar, procura afastar toda e qualquer ideia, o mais ínfimo pensamento, da sua cabeça. Agora apenas importa o estoiro da pistola e a resposta que o seu corpo dará no momento decisivo. Anos de treino, esforço, concentração, tudo para que este momento dure menos de dez segundos, no mínimo menos de dez segundos.

   Fora sempre rápido, muito rápido, por vezes demasiado rápido, até mesmo no acto do seu nascimento. A mãe mal tivera tempo para chegar ao telefone, ele escorrera-lhe pelas pernas abaixo como um esguicho, carne e placenta, a mãe a tentar agarrá-lo e ele a escapar-se por entre as mãos dela, viscoso e escorregadio, características que, vinte anos mais tarde, alguém lhe atribuíria.

   Mas agora é imperioso retirar tudo isso da cabeça, depois do tiro tudo durará menos de dez segundos, acabam-se as memórias, as recordações, as coisas que lhe atiram à cara. Desta vez é a sério.

   Para ganhar precisa de correr cem metros e levar menos de dez segundos a percorrê-los.

  

 

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