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VIII

Novembro 28, 2006

Constantino era guardador de marijuana e de sonhos. Tinha os cabelos pretos tão encaracolados que ela, do alto ou do vale dos seus treze anos, pensava todo o tempo em prendê-los entre os dedos e depois enrolá-los à volta do indicador. Mas nunca ousava. Entre os dois estabeleceu-se um laço de magia e de pudor. Falavam pouco, não por falta de assunto, mas porque os dois só mereciam ouvir o que era importante. Seguiam o olhar do outro e por isso, muitas vezes, descobriam-se face a face, e despertavam.

No início ela só sabia que: um, ele era rapaz; dois, ele era um rapaz dali. Era um conhecimento rudimentar, mas provocou uma revolução. O primeiro dado activou a consciência do género, feminino; o segundo activou a consciência de classe, ela era turista. Sem se aperceber, Constantino provocou um enorme embaraço. Mas depois, os cabelos dele, o tom de voz, de confissão urgente e rara, de sedução que grita carência, e um cheiro de pele novo, mas gostoso, a maresia e a homem, fizeram com que esquecesse a política. Escutava-o com atenção quando dizia o mar, a pesca, o café do pai, um dia, partir, e olhava o mar para o ver como ele o via, conversava com o pescador Luís para saber ainda mais, fixava o café com o seu telhado de colmo, imaginando como teriam sido os dias e noites que ele vivera antes dela o conhecer. Pareciam-lhe quentes e livres. Se um dia partir, ele vai voltar. Constantino era um rapaz feliz com os olhos tristes. Podemos ser felizes e não o saber. ou talvez seja manha.

O pai dele aproximou-se. Queixou-se do desinteresse do filho pelos estudos e pediu para ela o influenciar. Quando os via juntos, piscava-lhe o olho para ela se lembrar do trato. Mas isso não era importante. A verdade é que ele passou a ser o guia dela naquelas semanas. Deve ter acontecido sem querer, que é o mesmo que dizer com querer mas suavemente. Vais ali dizer à menina onde ficam os cavalos, e ele foi e ficou. E a menina aprendeu equitação, e do trote passou ao galope, e em pouco tempo corriam os dois lado a lado, sem medo. Uma vez ela descobriu uma passagem sob as rochas entre duas praias. Rastejou para o outro lado e esqueceu o tempo, até a maré subir e ela ficar prisioneira. Ele ficou horas a vigiá-la no cimo da falésia. De resto, desde esse dia, não fez mais que vigiá-la e protegê-la. Ia à frente em todos os caminhos, testando o equilíbrio das pedras, resguardando-a de todos os perigos.

O pai dela foi falar com ele. Constantino, a minha filha tem treze anos, disse-lhe. e Constantino chorou. Por que choraste? porque é uma injustiça só teres treze anos. Um silêncio novo apareceu. Foi no dia seguinte que ela nadou pelo mar adentro, até a praia e os braços que chamavam perderem nitidez, e uma alegria cada vez maior crescer, impulsionando braçadas cada vez mais vigorosas, até aquele barco aparecer e o pescador Luís, um velho de trinta anos, lhe perguntar se queria subir, ver as grutas que o mar escavou, e a resgatar.

Um dia, às seis da manhã, ele bateu-lhe à janela para lhe dizer adeus. Assim, a janela acabada de abrir, ele, adeus, ela, vê-lo subir a rua com a mochila às costas. Chamou-o. Não consigo despedir-me. e acelerou o passo.

Fazia a mala lentamente. Os braços pesavam. Mas antes da partida, a notícia. Constantino fugira de casa. Foi ter com os amigos da droga, chorava o pai dele.


*

Cinco anos depois, em pleno Inverno, ela entrou no café.

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