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Novembro 21, 2006

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Ele vai a casa dela todas as terças-feiras demanhã.

Desde os primeiros encontros que pouco falam. A saciedade que buscam não se alimenta de palavras. Lançar um Bom dia sempre foi muito, porque inútil. Perguntar quanto tempo hoje, cínico, será o tempo que for possível. Pedir-lhe qualquer coisa, um abuso. Nem ilusões nem círculos. Há vontade de amor físico, de possuir. E porque são eles, de lembrar os sentidos, de os atiçar, tentar domar.
Começam sempre da mesma maneira. Ele mergulha a cabeça no pescoço dela e tudo cresce à medida que inspira. Às vezes cruzam o olhar sem querer. Então ela baixa-se e esconde o rosto no sexo dele. Mas geralmente rodam um dentro do outro, um à volta do outro, em movimentos de rotação e translacção em que ela é quase sempre o eixo da terra ou o sol. E de tempos a tempos, entregam-se a mortais e rodilhas. E de tempos a tempos apenas aquele desnudar prático, o estender dos corpos, dar as mãos e a cópula funda, gemida.

Depois respiram, arrefecem, e voltam a aquecer com o que for possível, os braços, as costas, as pernas, o lençol, dos dois, até ao fim do repouso.

Sem palavras, surge a ordem que os deixa com um ar sério. Ele veste-se silencioso, atento aos sinais. Mas raramente capta qualquer coisa nova nas pequenas distracções que acontecem entre a cama e a casa de banho. Ela percorre esse caminho já sozinha. Caminha devagar, passa uma mão pelo pescoço, levanta o cabelo, estica os braços, e despede-se. Do duche, lança-lhe no mesmo tom de sempre, baixo, calmo, um segundo adeus.

Ele não tem mais ninguém. Ela sabe. Ela não pode ter mais ninguém.

Ultimamente qualquer coisa mudou. Ele descobriu o nome dela e às vezes zanga-se. Quando se zanga, não aparece. Se ele pudesse vê-la nessas manhãs de espera, como continua a olhar-se ao espelho e se penteia mais uma vez, como mais tarde acelera o passo e as tarefas para o esquecer e como invariavelmente acaba a chorar sem muita pena de si própria, se ele pudesse vê-la, e ele quase a vê, levaria tempo a recuar, a voltar atrás, tocar a campaínha e afundar-se no pescoço dela. Levaria o tempo possível, uma semana.
Ultimamente ela tem sido mais generosa. Às vezes diz-lhe que quer dar prazer e dá-lhe prazer e depois abana a cabeça, ele não tem que retribuir. Parece-lhe muita generosidade, uma generosidade nova nela. Mas depois ela estende-lhe a roupa e diz-lhe adeus, e do duche ele ouve ainda o seu segundo adeus. A generosidade foi dele que ofereceu o corpo.

A um amigo ele falou da mulher das terças-feiras. O amigo disse que parecia um sonho e essa ideia fá-lo sempre sorrir. Hoje cruzou-se com esse amigo depois do trabalho. Estava cansado. Por isso disse-lhe que sim, que continuavam a ser amantes, mas que ela não precisava dele e que se sentia cada vez mais lixo.
Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.

Foto: Lilya Corneli

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2 comentários

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