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V – capítulo 2, por Faz de Conta

Novembro 21, 2006

Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.

 

 

Depois lentamente desceu à calçada.

Ela nem queria, e dizia alto sempre que despejava o lixo, como quem despeja partes, eu nem preciso, nem quero. Mas queria cama, isso ela sabia que queria, aquele morno uterino de noite, a lembrar-lhe a dor da entrega em corpo. Corpo padecido em projecção furiosa e ávida, carnes frágeis.

Depois, tudo se lava, translúcida que arrasta o cheiro, as mãos, o hálito, as palavras fechadas no fundo da garganta.

Lavo-me e lavo-te. E despejo o lixo como te despejo a ti. Eu que nem preciso. Tu que me alivias e me transformas as formas em peso arrastado, só corpo, marcas de pés e mãos e cheiros, sem memórias.

Lavo-me. Devagar e minuciosamente.

Hoje é só quinta-feira.

Terça-feira dir-te-ei que não precisas voltar. A ver.

Autor: J.P., Faz de Conta

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